**Lead**
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) registrou desempenho eleitoral amplamente favorável nas cidades brasileiras mais atingidas pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil, vencendo na maioria esmagadora desses municípios. O resultado, observado em análises de votação e dados econômicos, reforça a capilaridade do bolsonarismo em regiões onde a indústria e o agronegócio sentem diretamente os efeitos das barreiras comerciais norte-americanas.
**Contexto**
Desde o início do governo Joe Biden, os Estados Unidos mantiveram tarifas elevadas sobre produtos como aço, alumínio e suco de laranja, setores estratégicos para a economia brasileira. Em 2025, a administração americana ampliou as sobretaxas para incluir etanol e carne bovina, gerando forte reação do governo Lula e de entidades empresariais. As cidades mais afetadas concentram-se no Sudeste e Sul do país, com destaque para municípios do interior de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, onde há parques industriais e cooperativas agrícolas dependentes das exportações.
Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e figura central da direita brasileira, disputou a reeleição ao Senado em 2026. Sua campanha enfatizou o discurso de defesa da soberania nacional e crítica à política externa do governo petista, que, segundo ele, teria sido leniente com as pressões americanas. O senador também se beneficiou da máquina partidária e do apoio de lideranças locais em cidades historicamente alinhadas ao bolsonarismo.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que, nas urnas, Flávio Bolsonaro obteve votação superior a 60% em diversos municípios listados como críticos pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) em relatório sobre impacto tarifário. Embora não haja um ranking oficial exato, analistas apontam que o senador venceu em praticamente todas as localidades onde a atividade econômica mais sofre com as tarifas, como Volta Redonda (RJ), Contagem (MG), São José dos Campos (SP) e Caxias do Sul (RS).
**Análise**
A performance de Flávio Bolsonaro nessas regiões carrega um significado político relevante. Em primeiro lugar, demonstra que o eleitorado diretamente prejudicado pelas medidas protecionistas americanas não culpou o bolsonarismo — que historicamente defendeu alinhamento com os EUA — mas sim o governo federal atual. A retórica de que o Brasil estaria sendo “humilhado” por Washington encontrou eco entre trabalhadores e empresários que perderam mercados e empregos.
Em segundo lugar, o resultado fortalece a posição de Flávio Bolsonaro como herdeiro político do pai e possível candidato ao Planalto em 2030. A capacidade de vencer em cidades industriais, tradicionalmente associadas ao PT e ao centro-esquerda, indica uma expansão da base bolsonarista para além do agronegócio e dos evangélicos. Especialistas do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) apontam que o fenômeno pode estar ligado à percepção de que o governo Lula não conseguiu reverter as tarifas, enquanto a oposição capitalizou o descontentamento.
Por outro lado, a vitória de Flávio Bolsonaro nessas localidades não significa necessariamente apoio irrestrito à sua agenda. Pesquisas qualitativas sugerem que o voto foi mais um protesto contra a política econômica do que uma adesão ideológica ao bolsonarismo. O desafio do senador será transformar essa vantagem eleitoral em capital político para influenciar as negociações comerciais com os EUA e para construir uma plataforma de governo viável.
**Fontes**
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – resultados oficiais das eleições de 2026. - Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) – relatório sobre impacto das tarifas americanas na economia brasileira, 2025. - Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) – análise de comportamento eleitoral em regiões industriais. - Dados públicos da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos sobre fluxo de exportações afetadas.
Por Renan Filho · 2026-10-08