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Flávio esbarra em polêmicas de Bolsonaro e ignora 'Dark Horse' ao explorar crise no STF

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

Enquanto o senador Flávio Bolsonaro tenta capitalizar a insatisfação popular com o STF, o próprio clã enfrenta o desgaste de novas revelações. A estratégia de mirar o Judiciário esbarra na falta de tração eleitoral e na ascensão silenciosa de um nome que ninguém viu chegar.

O cenário político brasileiro de 2026 começou com o Planalto em chamas cruzadas. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) decidiu transformar a crise institucional entre Executivo e Supremo Tribunal Federal (STF) no carro-chefe de sua pré-candidatura. Em discurso no plenário na última terça-feira, ele classificou a recente decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender o sigilo de investigações que miram aliados do ex-presidente como "ataque frontal à democracia" — mas o tom de indignação não encontrou eco nem mesmo entre os próprios pares.

A crise no STF é real e oferece munição de sobra para qualquer oposicionista. O problema é que Flávio Bolsonaro não é qualquer oposicionista: ele é o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, e carrega nas costas o peso de um passado repleto de contradições. Enquanto tenta se posicionar como o grande fiador do liberalismo econômico e da pauta de costumes, o senador vê sua própria imagem ser arrastada para o centro de novas polêmicas.

A mais recente delas veio à tona na última semana, quando o jornal Folha de S. Paulo revelou que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações atípicas em contas de assessores ligados ao gabinete de Flávio. O caso, que já foi arquivado em instâncias anteriores, voltou a ganhar tração após a divulgação de novos documentos pela CPI da Pandemia. Em nota oficial, a assessoria do senador classificou a reportagem como "mais um capítulo da perseguição midiática contra a família Bolsonaro" — mas o estrago já estava feito.

A estratégia de Flávio é clara: explorar a crise do STF para se apresentar como vítima de um sistema corrupto. No entanto, ao fazer isso, ele esbarra em um dilema que seus aliados mais próximos preferem não verbalizar publicamente: o eleitor brasileiro já não compra mais o discurso de que tudo é perseguição. Dados do último levantamento do instituto Datafolha, divulgados no início de setembro, mostram que 67% dos entrevistados consideram o STF um poder necessário para frear abusos do Executivo — um número que subiu 12 pontos desde o início do mandato de Lula.

Enquanto isso, no campo da direita, um nome vem ganhando destaque silencioso: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Chamado por analistas políticos de "dark horse" (azarão, em tradução livre), Tarcísio tem evitado se envolver diretamente no confronto com o STF, preferindo pautar sua gestão por entregas concretas e reformas estruturais. Em um evento na FIESP na última quinta-feira, ele afirmou que "o Brasil precisa de menos barulho e mais eficiência" — uma frase que soou como um recado direto a Flávio.

Por que isso importa? Porque a direita brasileira está diante de uma encruzilhada. De um lado, o bolsonarismo raiz, personificado na figura de Flávio, que aposta no confronto permanente com as instituições. De outro, uma ala mais pragmática, que enxerga em Tarcísio a chance de ampliar o eleitorado para além da bolha ideológica. O senador, no entanto, parece ignorar essa movimentação. Em entrevista à Rádio Jovem Pan na última segunda-feira, ele chegou a classificar o governador paulista como "um grande nome", mas desconversou ao ser questionado sobre uma possível aliança em 2026.

A análise FORTIS é direta: a crise do STF é uma oportunidade real para a oposição, mas Flávio Bolsonaro não é o mensageiro ideal. Sua proximidade com o ex-presidente, aliada às sombras de investigações passadas, o tornam um alvo fácil para a narrativa governista. Além disso, sua incapacidade de dialogar com o centro democrático limita seu potencial de crescimento. O eleitor médio, cansado de polarização, busca soluções para problemas concretos — e Flávio parece oferecer apenas mais do mesmo.

Há, contudo, quem argumente que a estratégia de Flávio pode funcionar a curto prazo. Em um cenário de radicalização crescente, a base bolsonarista tende a se unir em torno de um nome que se apresente como o herdeiro político do ex-presidente. O problema é que essa base, embora fiel, é numericamente insuficiente para vencer uma eleição presidencial. Pesquisas internas do próprio PL, vazadas para a imprensa, indicam que Flávio não ultrapassa 12% das intenções de voto em cenários estimulados — um número estável há seis meses.

O contraponto vem de dentro do próprio partido. Em conversas reservadas, líderes do PL têm pressionado Jair Bolsonaro para que ele declare apoio explícito a Tarcísio antes do fim do ano. O argumento é simples: o ex-presidente teme perder o controle do eleitorado para um nome que não deve lealdade ao clã. Mas o tempo está contra. Com as convenções partidárias marcadas para julho de 2026, a janela para uma reviravolta se estreita a cada dia.

Enquanto isso, o Brasil segue refém de uma crise institucional que não parece ter solução imediata. O STF, por sua vez, segue agindo com mão de ferro contra investigados de todas as esferas, o que alimenta a narrativa de perseguição. Mas, como bem lembrou o jurista Ives Gandra Martins em artigo publicado na Revista Oeste, "não se combate autoritarismo com mais autoritarismo, e sim com instituições fortes e independentes". A pergunta que fica é: qual lado da direita brasileira está disposto a ouvir isso?

Fato é que Flávio Bolsonaro, ao insistir em um discurso que já não convence nem os próprios aliados, corre o risco de se tornar uma figura anacrônica. Enquanto isso, o "dark horse" segue galopando nos bastidores, aguardando o momento certo para assumir as rédeas de um movimento que, sem ele, pode simplesmente se desmanchar no ar.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.