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O deputado federal Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou na tarde desta quarta-feira, 28 de outubro, uma nova versão de uma carta pública na qual substituiu a expressão “verdadeiro presidente eleito” por “líder” ao se referir ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O documento, endereçado a apoiadores e lideranças conservadoras, representa um recuo na retórica que o parlamentar vinha adotando desde as eleições de 2022, quando passou a defender publicamente a tese de fraude eleitoral sem apresentar provas concretas. A mudança ocorre em meio a investigações em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre os atos de 8 de janeiro de 2023 e a suposta tentativa de golpe de Estado.
**Contexto**
Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente, sempre foi uma das vozes mais ativas no núcleo duro bolsonarista. Desde a derrota de Jair Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva em outubro de 2022, o deputado repetiu em discursos, entrevistas e postagens a afirmação de que o pai era o “verdadeiro presidente eleito”, insinuando que o pleito teria sido fraudado. A narrativa, no entanto, nunca foi corroborada por órgãos oficiais de fiscalização eleitoral, como o TSE, nem por auditorias independentes. Em 2023, a Polícia Federal abriu inquéritos para apurar a disseminação de informações falsas sobre o processo eleitoral, e Flávio chegou a ser alvo de medidas cautelares.
A carta original, datada de setembro de 2024, havia sido distribuída em eventos de direita e em grupos de WhatsApp. Nela, o deputado afirmava que “o Brasil precisa reconhecer o verdadeiro presidente eleito” e pedia mobilização popular. Agora, na nova versão obtida pela imprensa, o trecho foi alterado para “o Brasil precisa de um líder que una o povo”. A expressão “verdadeiro presidente eleito” foi completamente suprimida, e o texto passou a enfatizar a necessidade de união das forças conservadoras em torno de um projeto político, sem mencionar diretamente o resultado das urnas.
A assessoria de Flávio Bolsonaro confirmou a autenticidade do novo documento, mas não explicou os motivos da alteração. Nos bastidores, aliados do deputado afirmam que a mudança reflete uma orientação de advogados para evitar novas ações judiciais. O STF, por exemplo, tem considerado que declarações que negam a legitimidade do presidente Lula podem configurar crime contra o Estado Democrático de Direito. Em agosto de 2026, o ministro Alexandre de Moraes determinou a inclusão de Flávio em um inquérito que investiga a organização de atos antidemocráticos.
**Análise**
A substituição de “verdadeiro presidente eleito” por “líder” não é apenas uma questão semântica. Ela sinaliza uma possível mudança de estratégia no campo bolsonarista, que enfrenta um cenário jurídico cada vez mais apertado. Com as eleições municipais de 2026 se aproximando e a popularidade de Lula oscilando, parte da direita avalia que manter o discurso de contestação radical pode afastar o eleitor moderado e dificultar alianças. Ao mesmo tempo, a base mais fiel do ex-presidente reage com desconfiança ao recuo, interpretando-o como uma traição à “luta contra o sistema”.
O gesto de Flávio também pode ser lido como uma tentativa de blindar o próprio mandato. O deputado responde a pelo menos três ações no Conselho de Ética da Câmara por quebra de decoro parlamentar, todas relacionadas a declarações sobre o processo eleitoral. Se condenado, ele pode perder o cargo. A nova carta, ao evitar a contestação direta da vitória de Lula, reduz o material que poderia ser usado contra ele nessas representações.
Para o governo federal, o recuo é visto com cautela. Assessores palacianos avaliam que a mudança de tom não elimina o risco de novos atos de radicalização, mas reconhecem que ela diminui a temperatura política em um momento em que o Executivo busca aprovar pautas econômicas no Congresso. Líderes do centrão, por sua vez, monitoram o movimento de Flávio como um possível indicativo de que o bolsonarismo está disposto a negociar em vez de confrontar.
**Fontes**
- Carta pública divulgada pelo deputado federal Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em 28 de outubro de 2026, disponível em seu site oficial e redes sociais. - Nota da assessoria de imprensa do gabinete do deputado, confirmando a autenticidade do documento. - Informações sobre inquéritos em andamento no STF e no TSE, conforme registros públicos dos tribunais. - Declarações de aliados do deputado, sob condição de anonimato, publicadas por veículos de imprensa como Folha de S.Paulo e O Globo. - Ata da sessão do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados de setembro de 2026, que lista as representações contra Flávio Bolsonaro.
Por Renan Filho · 2026-10-28