**Lead**
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou, no último domingo, um vídeo nas redes sociais em que ergue uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e faz um aceno público à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A atitude ocorre dias depois de o parlamentar atribuir à entidade a circulação de uma fake news sobre o projeto de lei que trata da anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. O gesto busca reduzir o desgaste político gerado pela declaração, que foi interpretada como um ataque à instituição católica.
**Contexto**
Na semana anterior, durante entrevista a um canal de comunicação digital, Flávio Bolsonaro afirmou que a CNBB estaria divulgando “fake news” ao associar o projeto de anistia a uma suposta liberação de criminosos. A declaração provocou reação imediata de lideranças católicas e de setores da sociedade civil, que cobraram retratação. A CNBB, por meio de nota oficial, negou ter usado o termo “fake news” e reforçou sua posição contrária ao texto que tramita no Congresso Nacional.
A relação entre a família Bolsonaro e a CNBB tem sido marcada por tensões desde o início do governo anterior, quando o então presidente Jair Bolsonaro promoveu embates públicos com a entidade por causa de posicionamentos ambientais, sociais e eleitorais. Bispos ligados à Conferência também foram alvo de críticas de apoiadores do ex-presidente, especialmente durante a pandemia de covid-19, quando a entidade defendeu medidas de isolamento e o uso de máscaras.
O projeto de anistia, apresentado por aliados do ex-presidente, pretende beneficiar investigados e condenados pelos atos que resultaram na destruição das sedes dos Três Poderes, em Brasília. A CNBB, em manifestações públicas, classificou os atos como graves ataques à democracia e pediu que o Congresso rejeitasse qualquer proposta que pudesse significar impunidade. O texto, no entanto, segue em análise e se tornou um dos principais focos de disputa entre governo e oposição neste ano.
Ao erguer a imagem de Nossa Senhora, Flávio Bolsonaro tentou deslocar o debate para o terreno religioso. O vídeo, gravado em um ambiente aparentemente residencial, mostra o senador segurando a imagem e dizendo que tem “devoção à santa” e que respeita a fé do povo brasileiro. Ele não citou diretamente a CNBB nem pediu desculpas, mas afirmou que “nunca pretendeu ofender católicos”. A publicação foi interpretada por aliados como uma forma de apaziguar o eleitorado religioso, que representa uma parcela significativa da base do bolsonarismo.
**Análise**
O gesto de Flávio Bolsonaro é calculado e ocorre em um momento de fragilidade política. O senador responde a processos no Supremo Tribunal Federal e enfrenta desgaste público constante. Ao mesmo tempo, tenta preservar o capital eleitoral entre evangélicos e católicos, segmentos que tiveram peso decisivo nas últimas eleições. A imagem de Nossa Senhora Aparecida, símbolo maior da fé católica no Brasil, serve como uma ponte retórica para recuperar diálogo com uma instituição que historicamente tem influência política no país.
A resposta da CNBB será observada com atenção nos próximos dias. Embora a entidade raramente perdoe ataques diretos, a possibilidade de um diálogo com o senador não está descartada, especialmente porque a Conferência tem demonstrado preferência por uma atuação institucional e moderada. No entanto, analistas políticos apontam que o episódio escancara um dilema: o bolsonarismo depende do apoio do eleitorado religioso para manter sua força, mas a CNBB e outras lideranças eclesiásticas têm sido críticas recorrentes do bolsonarismo.
A movimentação também indica uma tentativa de reduzir o isolamento político do grupo oposicionista. Com o governo atual consolidado e as investigações do 8 de janeiro avançando, a base fiel ao ex-presidente busca novas formas de legitimação pública. O uso de símbolos religiosos, como a imagem de Nossa Senhora, é um recurso frequente nesse universo, que procura associar a luta política a uma suposta defesa de valores cristãos. A eficácia desse movimento, porém, dependerá da resposta da opinião pública e, principalmente, da reação da própria CNBB.
**Fontes**
As informações desta reportagem foram baseadas em declarações públicas do senador Flávio Bolsonaro veiculadas em suas redes sociais, na nota oficial divulgada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e em reportagens publicadas por veículos de imprensa que cobrem o Congresso Nacional, como Agência Câmara, Agência Senado e jornais de circulação nacional.
Por Renan Filho · 2026-09-28