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Opiniao

Flávio Bolsonaro desiste de ir ao debate da Globo: recuo estratégico ou desprezo ao contraditório?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-01

Senador e pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro anunciou que não participará do debate promovido pela Rede Globo. A decisão reacende o debate sobre a relação do bolsonarismo com a grande imprensa e levanta dúvidas sobre a estratégia eleitoral do clã.

**Lead** Na última terça-feira, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) comunicou oficialmente que não comparecerá ao debate organizado pela Rede Globo para as eleições gerais no Brasil. A decisão foi anunciada por meio de suas redes sociais, sem que fossem apresentados detalhes específicos sobre os motivos. O movimento ocorre em um momento de intensa disputa política no estado do Rio de Janeiro, onde Flávio é pré-candidato ao governo. A ausência em um dos principais palcos de debate do país levanta questões sobre a disposição do bolsonarismo em confrontar visões adversárias em ambientes mediáticos tradicionais.

**Contexto** Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, construiu sua carreira política ancorada na rejeição ao establishment político e à mídia convencional, que muitas vezes classifica como “parcial” ou “adversária”. Durante o governo de seu pai, a relação com a imprensa foi marcada por episódios de hostilidade e ataques diretos. A Globo, em particular, foi alvo recorrente de críticas, sendo acusada de praticar “jornalismo militante”. A recusa em participar do debate não é inédita na trajetória bolsonarista — Jair Bolsonaro, em 2018 e 2022, também evitou ou condicionou sua presença em debates da emissora.

A decisão de Flávio precisa ser lida dentro do contexto eleitoral fluminense. O senador enfrenta uma disputa acirrada, com adversários que incluem figuras consolidadas, como o governador Cláudio Castro (PL) — aliado, mas que pode se transformar em rival dependendo da aliança — e possíveis candidatos de esquerda. O debate da Globo costuma ter grande audiência e repercussão, sendo considerado um divisor de águas para candidatos que buscam atingir eleitores indecisos. Ao se ausentar, Flávio abre espaço para que seus oponentes apresentem seus projetos sem contraponto direto, mas também evita o risco de ser exposto a perguntas incômodas sobre as investigações que o envolvem, especialmente no âmbito do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e da Alerj.

**Análise** A desistência de Flávio Bolsonaro carrega um forte componente simbólico. Em um cenário de polarização, a recusa ao debate pode ser interpretada como uma reafirmação da estratégia de “fogo amigo contra a mídia”, que mobiliza a base bolsonarista em torno da narrativa de perseguição. No entanto, também sinaliza um possível cálculo eleitoral: para um candidato que depende do voto mais fiel e radicalizado, comparecer a um debate que inevitavelmente trataria de temas sensíveis — como as suspeitas de rachadinhas e a quebra de sigilo bancário — poderia ser mais prejudicial do que benéfico. A ausência é um risco calculado: perde-se a chance de angariar votos de eleitores moderados, mas preserva-se o discurso de “não dar palco” para o que o bolsonarismo chama de “sistema”.

Do ponto de vista da democracia, a decisão levanta o debate sobre o papel dos debates eleitorais. A sociedade espera que candidatos submetam suas ideias ao contraditório. Quando um postulante ao cargo mais importante de um estado se recusa a participar de um debate nacionalmente transmitido, enfraquece-se a tradicional função de esclarecimento público. Por outro lado, a liberdade do candidato em recusar convites também é parte do jogo democrático — desde que arque com as consequências políticas. O risco, para Flávio, é que a ausência seja vista como fuga, e não como estratégia. Resta saber se sua base reagirá com entusiasmo ou se o eleitorado mais amplo interpretará o gesto como sinal de fraqueza.

**Fontes** - Redes sociais oficiais do senador Flávio Bolsonaro (perfil no Twitter/X e Instagram) - Comunicado oficial da Rede Globo sobre o debate (site G1) - Perfil político de Flávio Bolsonaro em matérias do jornal O Globo e Folha de S.Paulo - Histórico de debates eleitorais no Brasil (Tribunal Superior Eleitoral)

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.