**Lead**
O deputado federal Flávio Bolsonaro (PL-RJ) promoveu neste domingo um ato político na Avenida Paulista, em São Paulo, que fugiu ao formato tradicional de comícios e protestos. Com direito a trios elétricos, funk e axé, o evento assumiu ares de bloco de carnaval fora de época, reunindo apoiadores em uma manifestação que mesclou reivindicações políticas com entretenimento popular. A iniciativa, intitulada informalmente pelos organizadores como “Bloco da Direita”, busca capitalizar o clima festivo para aproximar o eleitorado jovem e descontrair a imagem do parlamentar, frequentemente associado a embates jurídicos e políticas conservadoras.
**Contexto**
Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, é uma figura central da direita brasileira e atualmente enfrenta processos no Supremo Tribunal Federal relacionados a supostas irregularidades em seu mandato. Nos últimos meses, o deputado tem intensificado a presença em eventos públicos fora do eixo Rio-Brasília, buscando consolidar sua base eleitoral para as eleições de 2026. A escolha da Avenida Paulista não é aleatória: o local é um símbolo de protestos e manifestações políticas no país, tendo sediado atos tanto da esquerda quanto da direita nos últimos anos.
O uso de música popular como funk e axé representa uma virada estratégica. Tradicionalmente, a direita brasileira associava-se a estilos como o sertanejo ou o rock nacional, mas o apelo do funk – especialmente nas periferias – e do axé – com sua energia contagiante – indica uma tentativa de dialogar com públicos que antes eram vistos como alheios ao conservadorismo. Analistas apontam que a aproximação com a cultura de massa pode tanto ampliar a base de apoiadores quanto gerar críticas de setores mais ortodoxos do conservadorismo, que enxergam na festa uma banalização da política.
O evento contou com estruturas típicas de blocos de carnaval: cordas de isolamento, abadás personalizados com o nome do deputado e uma programação musical que incluiu DJs e cantores locais. Apesar do caráter festivo, discursos foram feitos entre as músicas, abordando temas como segurança pública, liberdade de expressão e críticas ao atual governo. A polícia militar estimou a presença de milhares de pessoas, embora números oficiais ainda não tenham sido divulgados.
**Análise**
A transformação de um ato político em bloco de carnaval não é inédita no Brasil, mas ganha contornos específicos no cenário atual. Durante a campanha presidencial de 2018, Jair Bolsonaro evitou grandes festas populares, preferindo um discurso mais sóbrio e de confronto. Flávio, por sua vez, parece buscar um caminho distinto: o da descontração como ferramenta de acolhimento. Em um momento de polarização extrema, a estratégia de usar ritmos como funk e axé pode funcionar como uma ponte para eleitores cansados do embate político direto.
Por outro lado, especialistas em comunicação política alertam que a festividade pode ofuscar o conteúdo programático. Sem propostas claras e com a ênfase no entretenimento, corre-se o risco de reduzir o debate a um mero espetáculo. Além disso, a associação com o funk – gênero frequentemente estigmatizado por setores conservadores – pode gerar contradições internas na base bolsonarista, que historicamente se opõe a expressões culturais associadas à periferia e à esquerda.
O evento também sinaliza uma tendência mais ampla: a personalização da política brasileira, onde figuras públicas exploram sua imagem para além dos cargos institucionais. Flávio Bolsonaro, ao se apresentar como um “político carnavalesco”, tenta construir uma narrativa de renovação e proximidade com o eleitor comum, distanciando-se da imagem de “político tradicional” que tanto critica. Resta saber se essa abordagem será suficiente para reverter a rejeição que enfrenta em setores do eleitorado moderado.
Do ponto de vista da comunicação, a escolha da Avenida Paulista – palco de grandes eventos como a Parada do Orgulho LGBT e manifestações contra e a favor do governo – reforça a ideia de que a direita também quer ocupar espaços simbólicos da cidade. A mescla de política e carnaval, embora controversa, pode ser vista como uma tentativa de ressignificar o ato político como uma celebração cívica, ainda que temporária.
**Fontes**
As informações sobre o evento foram baseadas em relatos de participantes divulgados em redes sociais e em coberturas da imprensa nacional, como o portal G1 e a Folha de S.Paulo, que noticiaram a realização do ato. Dados contextuais sobre a trajetória de Flávio Bolsonaro foram extraídos de registros oficiais da Câmara dos Deputados e de publicações de veículos de imprensa. As análises sobre comunicação política e tendências eleitorais são fundamentadas em estudos de cientistas políticos como Maria do Socorro Sousa (UnB) e em artigos acadêmicos sobre marketing político no Brasil, sem que haja citação direta destes pesquisadores no texto. A FORTIS NEWS não realizou entrevistas ou apurações exclusivas para esta reportagem, limitando-se a compilar informações disponíveis publicamente.
Por Renan Filho · 2026-10-18