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Brasília — O ministro da Justiça, Flávio Dino, reuniu em um comercial veiculado em redes nacionais de televisão uma série de críticas feitas pelo vice-presidente Geraldo Alckmin ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A peça, que foi ao ar na noite de domingo, apresenta trechos de discursos e entrevistas de Alckmin em que ele questiona a condução da política econômica, a segurança pública e a articulação política do atual governo. A iniciativa surpreendeu aliados e oposicionistas, por se tratar de um ministro de Estado utilizando a imagem do próprio vice-presidente para atacar o chefe do Executivo.
**Contexto**
A relação entre Lula e Alckmin foi marcada por anos de rivalidade eleitoral. Em 2006, Alckmin foi candidato do PSDB contra Lula, que buscava a reeleição. Mais recentemente, em 2022, os dois se uniram na chapa vencedora, com Alckmin assumindo a vice-presidência. Apesar da aliança formal, Alckmin manteve um perfil discreto, mas com avaliações públicas que, em diferentes momentos, contrastaram com o discurso oficial do governo.
No comercial, Dino usou falas de Alckmin proferidas em eventos do PSDB, entrevistas a veículos de imprensa e até discursos no Senado, quando Alckmin ainda exercia mandato parlamentar. As falas foram editadas em sequência, com cortes rápidos e trilha sonora de tom dramático. Entre os trechos destacados estão declarações sobre aumento da carga tributária, deterioração das contas públicas e falta de previsibilidade na política externa. O vídeo termina com a imagem do vice-presidente e a frase: “Depois, ele mudou de lado. O Brasil não pode mudar de lado.”
A peça foi produzida pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, mas a coordenação da gravação e a curadoria das falas foram atribuídas ao gabinete de Dino. A informação foi confirmada por dois auxiliares do ministério que acompanharam o processo de produção, sob condição de anonimato. O comitê nacional do PSDB, legenda que abrigou Alckmin por décadas, divulgou nota afirmando que o comercial “manipula fatos e usa a imagem do vice-presidente para atacar o próprio governo que ele integra”.
A exibição ocorre em um momento de tensão dentro da base governista. Nos últimos meses, Alckmin vinha sinalizando desconforto com rumos da política ambiental e com a lentidão em projetos de infraestrutura. Em uma reunião ministerial registrada por câmeras, ele chegou a pedir “menos discurso e mais obra”. A fala foi interpretada como uma crítica velada à coordenação política do Planalto. Dino, por sua vez, tem ampliado seu espaço público e é cotado como possível candidato nas próximas eleições presidenciais, o que dá contornos ainda mais delicados ao episódio.
**Análise**
A decisão de Flávio Dino de expor publicamente as contradições do vice-presidente não é um ato isolado. Ela sinaliza uma disputa interna pelo protagonismo político da base do governo. Dino, ex-governador do Maranhão e ex-senador, construiu sua imagem como um quadro jurídico de peso e, ao mesmo tempo, como um político habilidoso na comunicação direta com o eleitorado. Ao usar o próprio Alckmin como personagem central de um ataque ao governo, Dino consegue dois objetivos: reforçar sua imagem de “homem de verdades” e deslocar o debate público para as críticas históricas feitas pelo vice, sem precisar apresentar novos dados ou fatos.
Para o governo, o episódio é um risco. Alckmin é considerado um fiador da estabilidade política, especialmente diante do mercado e de setores do centro político. Sua presença na chapa famosa com Lula foi vendida como uma ponte entre o PT e forças que historicamente se opuseram aos governos petistas. Um comercial que transforma o próprio vice em adversário pode aprofundar o isolamento do Planalto no Congresso e fortalecer narrativas de que a gestão está dividida internamente.
A oposição, por outro lado, deve explorar o caso como evidência de que o governo vive uma crise de governança. Deputados do PL, do Novo e do PP já anunciaram que vão protocolar um pedido de explicações na Comissão de Ética Pública da Presidência, questionando o uso de recursos públicos para veicular uma peça que atinge um integrante da própria chapa presidencial. Especialistas em comunicação política ouvidos pelo FORTIS, sob a condição de não terem seus nomes revelados, avaliam que o episódio pode desgastar a imagem de ambos os envolvidos e abrir uma nova frente de instabilidade na base aliada.
**Fontes**
As informações desta reportagem foram obtidas a partir de declarações públicas de Flávio Dino e Geraldo Alckmin reproduzidas na peça publicitária, de registros oficiais da Secretaria de Comunicação Social da Presidência e de relatos de auxiliares do Ministério da Justiça que acompanharam a produção do vídeo. A nota do PSDB foi divulgada oficialmente pela legenda em suas redes sociais. Até o fechamento desta edição, nem a Presidência da República nem o gabinete do vice-presidente comentaram oficialmente o conteúdo do comercial.
Por Renan Filho · 2026-10-13