**Lead**
A discussão sobre o fim da escala 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos e folga um — ganhou força no Brasil com a tramitação de propostas legislativas que visam reduzir a jornada máxima para 36 horas semanais. No centro do debate está a aplicação dessa mudança a microempreendedores individuais (MEI) e microempresas, segmento que responde por cerca de 70% dos empregos formais no país. Enquanto defensores argumentam que a medida pode melhorar a qualidade de vida e a produtividade, críticos apontam riscos de aumento de custos e inviabilidade operacional para pequenos negócios.
**Contexto**
Atualmente, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) estabelece jornada máxima de 44 horas semanais, podendo ser reduzida por acordo coletivo. A escala 6×1 é comum em setores como comércio, serviços e indústria, especialmente em empresas de menor porte. O MEI, por sua vez, tem regime tributário simplificado e não é obrigado a seguir todas as regras trabalhistas, mas contratações formais dentro do seu negócio devem respeitar a CLT. Microempresas (faturamento anual até R$ 360 mil) também operam com margens apertadas e mão de obra enxuta.
A proposta de redução da jornada para 36 horas semanais, com adoção do modelo 5×2 (cinco dias de trabalho, dois de descanso), está em análise no Congresso Nacional. O texto prevê transição gradual e exceções para setores específicos, mas não detalha tratamento diferenciado para MEI e microempresas. Dados do Sebrae indicam que esses negócios empregam cerca de 15 milhões de trabalhadores formalmente, mas a entidade não divulgou projeções específicas sobre o impacto da mudança. O Ministério do Trabalho e Emprego, por sua vez, defende que a redução pode ser compensada por ganhos de produtividade, sem apresentar estudos setoriais.
**Análise**
Do ponto de vista dos defensores, a redução da jornada para 5×2 pode trazer benefícios diretos à saúde mental e física dos trabalhadores, reduzindo o absenteísmo e aumentando o engajamento. Em países como França e Alemanha, experiências com jornadas mais curtas mostraram aumento de produtividade em setores de serviços. No Brasil, sindicatos e centrais sindicais argumentam que a escala 6×1 é uma herança do período industrial e não se adequa à economia digital e de serviços. Para microempresas, a adoção do novo modelo poderia ser facilitada por meio de subsídios governamentais e linhas de crédito específicas, como sugerem economistas ligados ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Por outro lado, entidades patronais como a Confederação Nacional do Comércio (CNC) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) alertam que a imposição do fim da escala 6×1 sem adaptações para pequenos negócios pode gerar aumento de custos com horas extras e contratações adicionais. Microempresas, que muitas vezes operam com um ou dois funcionários, teriam dificuldade para reorganizar escalas sem comprometer o atendimento ao cliente. O Sebrae, em nota técnica, destacou que a maioria dos MEI não possui estrutura para arcar com encargos trabalhistas extras, e que a medida poderia incentivar a informalidade. A análise de tendências sugere que, sem um período de transição longo e incentivos fiscais, a proposta pode encontrar forte resistência no setor.
**Fontes**
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) — posicionamento público sobre a PEC da redução de jornada. Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) — estudos sobre perfil do MEI e microempresas. Confederação Nacional do Comércio (CNC) — manifestações sobre impacto trabalhista. Confederação Nacional da Indústria (CNI) — análises de competitividade. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) — estudos sobre produtividade e jornada.
Por Renan Filho · 2026-10-15