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Cultura

Fim da escala 6×1 pode encarecer supermercado? Veja projeção da CNI para Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-14

A proposta de extinção da jornada 6×1 reacende o debate sobre custos trabalhistas. A Confederação Nacional da Indústria projeta impacto nos preços dos alimentos, mas especialistas apontam ganhos de produtividade.

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A possibilidade de o Brasil abolir a escala de trabalho 6×1 — seis dias consecutivos de trabalho seguidos de um de descanso — gerou uma nova rodada de projeções econômicas. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou um estudo que aponta para um possível aumento nos custos operacionais do setor supermercadista, o que poderia se refletir nos preços ao consumidor final. A análise, apresentada em Brasília nesta semana, ocorre em meio à tramitação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa reduzir a jornada máxima para 36 horas semanais, eliminando o modelo 6×1. O tema, que mistura direitos trabalhistas e dinâmica de consumo, ganhou contornos de debate cultural sobre o valor do tempo livre.

**Contexto**

A escala 6×1 é uma das mais comuns no comércio varejista brasileiro, especialmente em supermercados, farmácias e lojas de conveniência. Funcionários trabalham seis dias e folgam um, totalizando até 44 horas semanais — limite constitucional atual. A PEC em discussão no Congresso Nacional propõe reduzir esse teto para 36 horas, o que, na prática, exigiria a contratação de mais pessoal ou a reorganização das escalas para manter o mesmo horário de funcionamento.

A CNI, que representa indústrias de diversos setores, incluindo a de alimentos e bebidas, estima que o impacto sobre a cadeia de suprimentos dos supermercados seria significativo. Sem citar números exatos, a entidade projeta um aumento nos custos com folha de pagamento, encargos sociais e treinamento de novos funcionários. Esses custos, historicamente, são repassados ao consumidor em forma de preços mais altos nas gôndolas. A projeção leva em conta que o setor supermercadista opera com margens apertadas, muitas vezes inferiores a 3%, e qualquer elevação de despesas tende a ser transferida.

Por outro lado, defensores da mudança argumentam que a redução da jornada pode aumentar a produtividade e reduzir o absenteísmo. Estudos internacionais, como os da Organização Internacional do Trabalho (OIT), indicam que jornadas mais curtas estão associadas a menor rotatividade e maior engajamento. No Brasil, experiências piloto em empresas de tecnologia e serviços já mostraram ganhos de eficiência com modelos de quatro dias de trabalho por semana.

**Análise**

O debate sobre o fim da escala 6×1 transcende a economia e toca em aspectos culturais profundos. O modelo atual é herança de uma organização do trabalho que privilegia a disponibilidade máxima do trabalhador, muitas vezes em detrimento da qualidade de vida. A discussão sobre a PEC reflete uma mudança de valores na sociedade brasileira, que passa a valorizar mais o lazer, a convivência familiar e o descanso. Esse movimento é observado em vários países, como Reino Unido, Islândia e Japão, onde experimentos com semanas de trabalho reduzidas mostraram resultados positivos tanto para empregados quanto para empregadores.

No caso específico dos supermercados, o impacto nos preços não é automático nem linear. A CNI alerta para o risco de inflação de alimentos, mas outros fatores podem mitigar esse efeito. A automação de caixas, a digitalização de processos logísticos e a adoção de sistemas de gestão de estoque podem absorver parte do aumento de custos. Além disso, a maior rotatividade de funcionários — problema crônico no varejo — tende a cair com jornadas mais humanas, reduzindo gastos com recrutamento e seleção.

A projeção da CNI deve ser interpretada com cautela. A entidade representa os interesses da indústria, que naturalmente resiste a mudanças que elevem custos trabalhistas. Por outro lado, o consumidor final pode se beneficiar de um ambiente de trabalho mais saudável, com atendentes mais motivados e menor índice de erros. O equilíbrio entre direitos sociais e competitividade econômica é o cerne do debate.

**Fontes**

- Confederação Nacional da Indústria (CNI) — estudo sobre impacto trabalhista no setor supermercadista. - Proposta de Emenda à Constituição (PEC) em tramitação no Congresso Nacional. - Organização Internacional do Trabalho (OIT) — relatórios sobre jornada de trabalho e produtividade. - Dados do setor supermercadista brasileiro, coletados pela Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS).

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.