**Lead**
O terceiro dia de férias deveria ser sinônimo de descanso, mas para uma parcela expressiva dos empreendedores brasileiros a realidade é outra: o celular não para. Notificações de grupos de trabalho, mensagens de clientes, alertas de pagamentos e chamadas de funcionários invadem o momento de lazer. O que pareceria uma simples dificuldade de desligar aponta para um fenômeno econômico mais profundo — a incapacidade de muitos donos de negócio de se ausentarem da própria empresa, mesmo em períodos oficialmente dedicados à recuperação física e mental.
**Contexto**
Historicamente, o empreendedor brasileiro é conhecido por assumir múltiplas funções dentro do próprio negócio. Segundo levantamentos realizados por entidades ligadas ao pequeno e médio varejo, uma parcela considerável dos sócios proprietários ainda acumula papéis de gestor, vendedor, atendente e até serviços administrativos. Com uma equipe enxuta ou sem lideranças intermediárias preparadas, esses donos acabam se tornando o ponto central de todas as decisões — e qualquer afastamento, mesmo que planejado, provoca insegurança.
A tecnologia, que poderia facilitar a delegação, na prática ampliou essa conexão permanente. O smartphone se transformou em um escritório portátil, e aplicativos de mensagens, sistemas de gestão e redes sociais corporativas fazem com que o trabalho esteja a um toque de distância. A sensação de urgência, alimentada pela concorrência acirrada e pela instabilidade econômica, reforça a crença de que “parar” significa perder oportunidades ou deixar problemas se acumularem.
Pesquisas nacionais e internacionais sobre comportamento organizacional vêm mostrando que essa dificuldade de se desligar não é um traço isolado, mas um padrão crescente entre líderes de pequenas e médias empresas. A pandemia de covid-19 agravou o quadro ao consolidar o trabalho remoto e a disponibilidade absoluta, tornando ainda mais tênue a fronteira entre vida pessoal e vida profissional.
**Análise**
A recusa em se ausentar é frequentemente interpretada como dedicação, mas economistas e especialistas em gestão alertam que ela produz efeitos negativos. O chamado presenteísmo — estar fisicamente presente, mas mentalmente exausto — reduz a capacidade de tomar decisões estratégicas e aumenta o risco de erros operacionais. No longo prazo, um empreendedor esgotado tende a perder a visão de futuro do próprio negócio, reagindo apenas a emergências em vez de planejar crescimento.
Há também uma dimensão econômica coletiva. Quando o líder não se afasta, ele impede que a equipe desenvolva autonomia e que processos sejam aperfeiçoados. A empresa madura é aquela que funciona mesmo na ausência do fundador, com delegação clara de responsabilidades e indicadores que permitam monitoramento objetivo. A perpetuação da dependência do dono reduz o valor de mercado do negócio, desestimula investimentos e compromete a sucessão familiar — um tema cada vez mais relevante diante do envelhecimento da população empreendedora no país.
Outro fator crítico é a saúde. O estresse crônico e a privação de descanso estão associados ao burnout, condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como síndrome relacionada ao trabalho. Sintomas como insônia, irritabilidade e dificuldade de concentração sendo normalizados como “parte do jogo” representam um custo silencioso que recai sobre o sistema de saúde e sobre a produtividade nacional. Empresários que negligenciam o próprio bem-estar acabam, paradoxalmente, tornando-se mais frágeis diante de crises econômicas.
O caminho para reverter esse quadro passa por uma mudança de gestão. Especialistas recomendam que o empreendedor defina períodos de descanso com a mesma rigorosidade com que define metas de faturamento, estabeleça protocolos claros de substituição e invista na formação de uma equipe capaz de operar sem supervisão direta. Ferramentas digitais podem ajudar, desde que usadas como aliadas do afastamento e não como extensão da jornada de trabalho.
**Fontes**
A reportagem tomou como base levantamentos de entidades como o Sebrae sobre comportamento empreendedor, diretrizes da Organização Mundial da Saúde a respeito da síndrome de burnout, além de estudos acadêmicos sobre presenteísmo e produtividade nas pequenas e médias empresas. As análises refletem dados públicos disponíveis até a data de publicação e não constituem recomendação personalizada de gestão.
Por Renan Filho · 2026-10-16