**Lead**
O Brasil enfrenta uma crise silenciosa e letal. A cada 24 horas, cerca de quatro mulheres são mortas simplesmente por serem mulheres — vítimas de feminicídio, crime tipificado desde 2015. Os números, compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelam uma realidade que atravessa classes sociais, regiões e idades. Para milhões de brasileiras, a segurança pública deixou de ser um direito básico e se tornou um sonho. Sonho de voltar para casa sem olhar por cima do ombro, de denunciar um agressor sem medo de represálias, de criar filhas em um país onde o gênero não seja sentença de morte.
**Contexto**
O feminicídio é a ponta mais cruel de um iceberg de violência estrutural. Antes da morte, há ameaças, agressões físicas, violência psicológica, patrimonial e sexual. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em média, uma mulher é vítima de violência doméstica a cada dois minutos no país. A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, foi um marco legal, mas sua implementação ainda enfrenta gargalos: falta de delegacias especializadas, despreparo de agentes públicos e subnotificação de casos.
Nos últimos anos, o Brasil registrou aumento no número de medidas protetivas concedidas, mas também no número de feminicídios. Especialistas apontam que a pandemia de covid-19 agravou o cenário, com o isolamento social confinando vítimas com seus agressores. A subnotificação é outro problema grave: muitas mulheres não denunciam por medo, dependência financeira ou descrença no sistema de justiça.
O perfil das vítimas é diverso, mas dados indicam que a maioria é negra, jovem e de baixa renda. O racismo estrutural e a desigualdade social se cruzam com a violência de gênero, criando camadas de vulnerabilidade. Mulheres indígenas, quilombolas e ribeirinhas enfrentam ainda mais obstáculos para acessar serviços de proteção.
**Análise**
Sonhar com segurança, para a mulher brasileira, não é um desejo abstrato — é uma necessidade urgente. O medo molda escolhas cotidianas: qual horário sair de casa, qual transporte usar, qual roupa vestir, por qual caminho andar. Esse estado de alerta permanente consome energia emocional e limita a participação plena na vida pública, no mercado de trabalho e na política.
A violência de gênero tem custos econômicos e sociais imensos. Estima-se que o Brasil perde bilhões de reais por ano com afastamentos, tratamentos de saúde, processos judiciais e queda de produtividade. Mas o custo humano é incalculável. Cada feminicídio deixa órfãos, famílias destruídas e comunidades traumatizadas.
A resposta do Estado, embora tenha avançado com a criação de políticas como a Patrulha Maria da Penha e as Casas da Mulher Brasileira, ainda é insuficiente. Apenas uma parcela dos municípios conta com delegacias especializadas. A capacitação de policiais, juízes e promotores para lidar com violência de gênero é irregular. E a cultura do machismo, que naturaliza a posse sobre o corpo feminino, persiste em discursos públicos e privados.
Movimentos sociais, como o #EleNão e as Marchas das Margaridas, têm pressionado por mudanças. Mulheres ocupam mais espaços de poder, mas ainda são minoria em cargos de decisão sobre segurança pública. A pauta da violência de gênero ganhou visibilidade, mas falta orçamento e vontade política para transformar leis em realidade.
Sonhar com segurança, portanto, é também sonhar com um Estado que proteja, com uma Justiça que puna, com uma sociedade que não culpe a vítima. É sonhar com educação que desconstrua estereótipos desde a infância, com redes de apoio que acolham e com políticas públicas que enfrentem as raízes da violência.
**Fontes**
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública — Anuário Brasileiro de Segurança Pública (edição 2025) - Instituto Maria da Penha - ONU Mulheres Brasil - DataSenado — Pesquisa Nacional de Violência Doméstica contra a Mulher - Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres (extinta, mas com dados históricos)
Por Renan Filho · 2026-10-01