**Lead**
Em uma movimentação que combina fandom, ativismo digital e métodos inspirados em ciência de dados, fã-clubes de artistas como Anitta e do grupo sul-coreano BTS estão coordenando esforços para ampliar a votação de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras. A ação, que ocorre majoritariamente em plataformas como Twitter, Instagram, TikTok e WhatsApp, não se limita a pedidos de voto: envolve a criação de guias de votação, monitoramento de tendências, uso de bots para amplificar mensagens e até a aplicação de técnicas de persuasão baseadas em psicologia social. Para pesquisadores da área de ciência política e comunicação, o fenômeno representa um caso emblemático de como comunidades de fãs, historicamente associadas ao entretenimento, estão se transformando em máquinas de mobilização política com alto grau de sofisticação analítica.
**Contexto**
A relação entre fandoms e política não é nova. Nos Estados Unidos, fãs de Taylor Swift e Beyoncé já se organizaram para campanhas de registro de eleitores. No Brasil, o chamado “voto de fã” ganhou visibilidade em 2018, quando grupos de apoiadores de artistas como Pablo Vittar e Ludmilla atuaram na campanha de Fernando Haddad. No entanto, a atual mobilização para o segundo turno de 2026 apresenta um salto de complexidade. De acordo com relatos de integrantes de fã-clubes organizados, as estratégias incluem a segmentação de públicos por região e faixa etária, a criação de conteúdos personalizados para cada plataforma e o uso de ferramentas de análise de engajamento para identificar os melhores horários de postagem.
O grupo BTS, cujo fandom global é conhecido como ARMY, tem uma longa tradição de ativismo social, incluindo campanhas contra o racismo e a violência. No Brasil, a ARMY brasileira já havia se mobilizado em causas como o combate à fome e a defesa dos direitos humanos. Agora, parte desses fãs está direcionando sua capacidade de organização para a campanha de Lula. O mesmo ocorre com o fã-clube de Anitta, que reúne milhões de seguidores no país. A cantora, que já declarou apoio público a Lula, tem uma base jovem e digitalmente ativa, o que facilita a disseminação de mensagens políticas.
A ciência por trás dessa mobilização é multidisciplinar. A análise de redes sociais (SNA, na sigla em inglês) permite mapear influenciadores dentro dos fandoms e direcionar esforços para os nós mais conectados. A psicologia comportamental contribui com técnicas de framing e priming — ou seja, como enquadrar a mensagem para gerar identificação emocional e como preparar o terreno para que o voto em Lula seja visto como uma extensão natural do apoio ao artista. Além disso, o uso de algoritmos de recomendação é estudado para que os conteúdos políticos apareçam com mais frequência nos feeds dos seguidores.
**Análise**
A importância desse fenômeno para a ciência política reside no fato de que ele desafia modelos tradicionais de campanha eleitoral. Em vez de depender de cabos eleitorais, comícios e programas de TV, a mobilização via fandoms opera em uma lógica de rede descentralizada, onde cada fã se torna um microinfluenciador. Estudos recentes publicados em periódicos como o *Journal of Information Technology & Politics* indicam que esse tipo de ativismo pode ser particularmente eficaz entre eleitores jovens, que consomem pouca mídia tradicional e confiam mais em recomendações de pares e ídolos.
Outro aspecto relevante é a capacidade de os fandoms criarem “câmaras de eco” positivas. Em vez de apenas reforçar crenças existentes, eles conseguem converter indecisos por meio de argumentos adaptados ao universo do fã — por exemplo, associando propostas de Lula a temas como diversidade, justiça social e sustentabilidade, que são caros a muitos seguidores de Anitta e BTS. A ciência da comunicação chama isso de “persuasão por afinidade”: quando a fonte da mensagem é percebida como parte do grupo de referência do receptor, a resistência à informação diminui.
No entanto, especialistas alertam para os limites desse modelo. A eficácia depende da capacidade de os fãs traduzirem o apoio ao artista em apoio político sem gerar rejeição. Em alguns casos, a politização excessiva de um fandom pode afastar parte dos seguidores que não desejam misturar entretenimento com política. Além disso, a falta de transparência sobre o uso de bots e contas automatizadas levanta questões éticas e legais, que estão sendo debatidas no âmbito da regulação das plataformas digitais.
**Fontes**
As informações deste artigo foram baseadas em reportagens de veículos como Folha de S.Paulo, UOL e O Globo, que cobriram a mobilização de fã-clubes nas eleições de 2026; em estudos acadêmicos sobre ativismo de fãs e comportamento eleitoral publicados em revistas como *Political Communication* e *New Media & Society*; e em análises de pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Comunicação e Política da Universidade de São Paulo (USP). Nenhum dado numérico específico foi citado por não haver fontes verificáveis disponíveis no momento da redação.
Por Renan Filho · 2026-10-09