**Lead**
Em uma estratégia que mescla cultura pop e engajamento político, fã-clubes da cantora Anitta e do grupo sul-coreano BTS estão coordenando ações para aumentar a votação de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras. A mobilização, que ocorre principalmente em plataformas digitais como Twitter, Instagram e TikTok, utiliza táticas comuns em torcidas organizadas de futebol — como mutirões de compartilhamento, criação de materiais de propaganda e organização de carreatas — para convencer eleitores indecisos e garantir a presença nas urnas no dia 30 de outubro.
**Contexto**
O fenômeno não é inédito. Nas últimas eleições, fã-clubes de artistas já haviam demonstrado capacidade de influenciar o debate público, especialmente entre jovens. Em 2018, grupos de fãs de K-pop e de cantores nacionais como Pabllo Vittar se engajaram em campanhas contra fake news e a favor de pautas progressistas. Agora, com a polarização acirrada, a adesão de bases organizadas de Anitta e do BTS — que juntos somam milhões de seguidores no Brasil — representa um potencial de alcance significativo.
Anitta, que declarou apoio a Lula ainda no primeiro turno, possui uma base de fãs altamente ativa, conhecida como “Anitters”. O grupo já realizou ações como a distribuição de panfletos em pontos de ônibus e a criação de tutoriais para baixar o aplicativo e-Título. Já o fandom brasileiro do BTS, chamado “ARMY”, é um dos maiores do mundo e tem histórico de mobilizações sociais, incluindo campanhas de doação e combate ao racismo. A aproximação com a campanha de Lula ocorre de forma orgânica, com influenciadores desses grupos produzindo conteúdo explicando propostas do candidato e desmentindo desinformações.
A escolha do segundo turno como foco não é casual. Pesquisas de intenção de voto indicam que a disputa está acirrada, e cada voto pode fazer diferença. Os fã-clubes miram especialmente eleitores jovens, de 16 a 24 anos, faixa etária que historicamente tem menor comparecimento às urnas. Para isso, utilizam linguagem e estética próprias da cultura pop — memes, vídeos editados, enquetes — para tornar o engajamento político mais atrativo.
**Análise**
A interseção entre cultura de fãs e política não é apenas uma curiosidade; ela reflete uma transformação mais ampla na forma como a participação cívica se organiza no século XXI. Torcidas organizadas de clubes de futebol sempre tiveram papel político no Brasil, mas a novidade é a escala digital e a transversalidade dos fandoms musicais. Ao adotar métodos de mobilização esportiva — como a criação de “escalações” de voluntários para cada bairro, o uso de hashtags padronizadas e a competição simbólica com outros fandoms — esses grupos conseguem gerar capilaridade que partidos tradicionais muitas vezes não alcançam.
Para a campanha de Lula, a parceria informal com esses fã-clubes oferece acesso a nichos que normalmente não seriam atingidos por comícios ou programas de TV. Além disso, a credibilidade dos influenciadores dentro de suas comunidades pode ser mais eficaz do que a propaganda política convencional. Por outro lado, críticos apontam que a politização de fandoms pode gerar radicalização e bolhas de informação, fenômeno já observado em outros países.
Do ponto de vista esportivo, a analogia é clara: assim como uma torcida organizada se mobiliza para lotar um estádio, esses fã-clubes se mobilizam para “lotar as urnas”. A diferença é que, no futebol, o resultado é decidido em 90 minutos; na política, o jogo é mais longo e incerto. Mas a energia e a criatividade são as mesmas.
**Fontes**
As informações deste artigo foram baseadas em reportagens publicadas por Folha de S.Paulo, O Globo e UOL, além de postagens verificadas em perfis oficiais de fã-clubes no Twitter e Instagram. Dados sobre engajamento foram extraídos de relatórios de monitoramento de redes sociais disponibilizados por institutos de pesquisa como Datafolha e Ibope Inteligência, sem citação de números específicos.
Por Renan Filho · 2026-10-09