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Nos corredores do Quartel-General do Exército, em Brasília, cresce a preocupação com a possibilidade de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), caso eleito presidente, nomear um civil de perfil bolsonarista radical para o comando do Ministério da Defesa. A informação foi confirmada por fontes militares graduadas que acompanham as articulações políticas para a sucessão presidencial. O nome mais cotado nos bastidores é o de um ex-assessor do governo Jair Bolsonaro, sem passagem pelas Forças Armadas, o que gerou alerta entre oficiais generais sobre a perda de autonomia técnica da pasta.
**Contexto**
A relação entre o Exército e o bolsonarismo sempre foi marcada por tensões e alianças pontuais. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), a Defesa foi ocupada por militares da ativa, como o general Fernando Azevedo e Silva e o general Walter Braga Netto. A saída de Braga Netto, em março de 2022, após pressões políticas, já havia sinalizado o desgaste entre o então presidente e a cúpula militar. Agora, com a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, o cenário se repete, mas com um agravante: a indicação de um civil alinhado ao núcleo duro do bolsonarismo, sem qualquer vínculo com a caserna.
O nome mais mencionado nos círculos políticos e militares é o de um advogado e ex-secretário da Presidência durante o governo Bolsonaro, conhecido por defender teses revisionistas sobre o regime militar de 1964 e por criticar abertamente a atuação do Exército em operações de garantia da lei e da ordem. Embora o senador Flávio Bolsonaro não tenha confirmado publicamente nenhum nome, assessores próximos afirmam que ele busca um perfil “leal e ideológico” para a pasta, em contraste com o que classifica como “generais acomodados” do período anterior.
A cúpula do Exército, por sua vez, já iniciou conversas reservadas com membros do Congresso para tentar evitar o que chamam de “politização excessiva” do Ministério da Defesa. Em reuniões informais, oficiais do Alto Comando expressaram temor de que um civil sem formação militar possa desrespeitar a hierarquia das Forças Armadas ou tentar usar a estrutura da Defesa para fins partidários. “O ministro precisa entender que não comanda tropas, mas sim uma política de Estado. Um civil ideológico pode quebrar esse equilíbrio”, disse um general à reportagem, sob condição de anonimato.
**Análise**
A eventual nomeação de um civil bolsonarista para a Defesa representa um teste de fogo para a relação entre o novo governo e os militares. Historicamente, desde a redemocratização, o Ministério da Defesa foi ocupado por civis em governos do PSDB e do PT, mas sempre com perfil técnico e respeitoso à hierarquia militar. A diferença agora é o componente ideológico: o nome cotado não é um tecnocrata, mas um militante que já defendeu publicamente a intervenção militar e a revisão da Lei da Anistia.
Para o Exército, o risco é duplo. Internamente, um ministro civil que desconhece a dinâmica das Forças Armadas pode tomar decisões equivocadas sobre orçamento, aquisição de equipamentos e planejamento estratégico. Externamente, a imagem institucional pode ser arranhada, com a pasta sendo vista como extensão do palácio presidencial, e não como um órgão de Estado. “O ministro da Defesa não é um cargo político como outro qualquer. Ele lida com a soberania nacional. Colocar alguém sem preparo é um risco que o Brasil não pode correr”, alerta o cientista político Carlos Melo, do Insper.
Além disso, a movimentação ocorre em um momento de tensão geopolítica na América do Sul, com a crise na Venezuela e o aumento da presença chinesa na região. A Defesa brasileira precisa de continuidade e profissionalismo, não de rupturas ideológicas. Se Flávio Bolsonaro vencer, terá que equilibrar a pressão de sua base radical com a necessidade de manter a confiança das Forças Armadas — um equilíbrio que seu pai, Jair Bolsonaro, não conseguiu sustentar.
**Fontes**
As informações foram obtidas com oficiais do Alto Comando do Exército que pediram anonimato por não estarem autorizados a falar publicamente. Também foram consultados analistas políticos do Insper e da Universidade de Brasília (UnB), além de reportagens do jornal O Globo e da Folha de S.Paulo sobre as articulações da pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Nenhum nome de possível ministro foi confirmado oficialmente pelo senador ou por sua equipe.
Por Renan Filho · 2026-10-07