**Lead**
O que começou como manifestação espontânea de apoiadores nas redes sociais se consolidou como um dos fenômenos culturais mais marcantes das últimas campanhas eleitorais no Brasil: o chamado ‘Exército do Lula’. Longe de ser uma organização formal, o termo designa a mobilização descentralizada de cidadãos que, por iniciativa própria, promovem a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por meio de memes, vídeos, artes gráficas e ações de rua. Mais do que um instrumento de propaganda, o movimento representa uma virada na forma como a cultura participativa se entrelaça com o processo democrático.
**Contexto**
A expressão ‘Exército do Lula’ não tem origem oficial. Ela foi cunhada por apoiadores e rapidamente adotada em comunidades digitais, especialmente no WhatsApp, Twitter e TikTok. Diferentemente de campanhas tradicionais, coordenadas por comitês partidários, esse exército opera de forma orgânica: cada integrante cria e compartilha conteúdo de acordo com sua própria criatividade. Não há hierarquia rígida, mas sim uma rede de afinidades que se reforça mutuamente.
O fenômeno ganhou força a partir de 2018, quando a impossibilidade de Lula concorrer gerou uma onda de solidariedade entre seus seguidores. Nos anos seguintes, com o retorno do ex-presidente ao cenário eleitoral, a produção cultural desse grupo se intensificou. Músicas, paródias, bordões e até coreografias foram criados e disseminados, transformando a campanha em um espetáculo de criatividade popular.
Do ponto de vista cultural, o ‘Exército do Lula’ pode ser classificado como um movimento de cultura participativa, conceito estudado pelo pesquisador Henry Jenkins. Nele, consumidores de informação deixam de ser passivos e se tornam produtores ativos. No caso brasileiro, a adesão é motivada não apenas por convicção política, mas por um sentimento de pertencimento e identidade coletiva.
**Análise**
A ligação com a campanha vai além do apoio explícito. O ‘Exército do Lula’ funciona como uma caixa de ressonância que amplifica mensagens de forma mais autêntica do que a propaganda institucional. Em vez de comunicados oficiais, os eleitores recebem conteúdos produzidos por pessoas como eles — o que gera maior identificação e confiança. Estudos de comunicação política indicam que esse tipo de engajamento orgânico tende a ser mais eficaz para mobilizar setores menos atingidos pela mídia tradicional.
No entanto, o movimento não está imune a controvérsias. A ausência de coordenação centralizada pode levar à disseminação de informações não verificadas, o que preocupa especialistas em desinformação. A cultura do ‘exército’ também levanta questões sobre os limites entre ativismo legítimo e pressão nas redes, embora seus integrantes defendam o caráter voluntário e apartidário (no sentido de não pertencer a partidos, mas sim a uma causa pessoal) de suas ações.
Culturalmente, o ‘Exército do Lula’ representa a democratização da comunicação eleitoral. Qualquer cidadão com um smartphone pode se tornar um produtor de conteúdo e influenciar a percepção pública. Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil — nos Estados Unidos, movimentos semelhantes surgiram em torno de candidatos como Bernie Sanders — mas ganhou contornos próprios no país pela força das redes de mobilização popular.
**Fontes**
Este artigo baseia-se em reportagens publicadas por veículos como Folha de S.Paulo, UOL, BBC Brasil e observações de pesquisadores da área de comunicação política e cultura digital, como o Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília (UnB). As referências incluem análises de comportamento coletivo em ambientes digitais e estudos sobre campanhas eleitorais brasileiras.
Por Renan Filho · 2026-10-24