**Lead**
Em 28 de outubro de 1974, o Brasil acordou mais pobre. Everaldo Marques da Silva, o lateral esquerdo da Seleção Brasileira tricampeã mundial no México, em 1970, morreu em um acidente de carro na BR-116, em Além Paraíba (MG), aos 30 anos. Ele foi o primeiro dos 11 titulares daquela equipe lendária a falecer — e, até hoje, sua morte precoce ecoa como um lembrete duro de que o futebol celebra heróis, mas raramente os protege depois do apito final.
**Contexto**
Everaldo não era o mais famoso daquela seleção. Pelé, Tostão, Rivelino, Gerson, Jairzinho — todos brilhavam mais nos holofotes. Mas a conquista do tricampeonato mundial em 1970 não teria sido completa sem a solidez defensiva e o apoio constante ao ataque vindos do lado esquerdo. Everaldo foi titular absoluto durante a Copa do México, formando com o capitão Carlos Alberto Torres uma das laterais mais completas da história do futebol.
Nascido em Porto Alegre (RS), em 11 de setembro de 1944, Everaldo construiu carreira no Internacional antes de brilhar no Grêmio, onde se tornou ídolo. Foi na equipe gremista que ele chamou a atenção do então técnico da Seleção, João Saldanha, e depois de Zagallo, que o manteve como dono da camisa 6.
Após o título, Everaldo seguiu no Grêmio até 1974, quando foi negociado com o América do México. O acidente aconteceu justamente quando ele voltava ao Brasil para tratar de assuntos pessoais, poucos dias depois de se despedir dos gramados. A notícia da morte abalou o país — e, de forma especial, os companheiros de seleção.
Pelé, em declarações registradas pela imprensa da época, lamentou a perda de um amigo e um dos jogadores mais disciplinados que já conheceu. Carlos Alberto Torres, capitão do tri, também destacou a importância de Everaldo no equilíbrio da equipe. Nenhum deles imaginava, naquele 28 de outubro, que a morte do lateral seria apenas a primeira de uma série de despedidas que, décadas depois, transformaria a geração de 1970 em uma legião de ausências ilustres.
**Análise**
A morte de Everaldo, 52 anos atrás, carrega um simbolismo que vai muito além do futebol. Naquele outubro de 1974, o Brasil vivia o chamado “milagre econômico” sob a ditadura militar, e a seleção tricampeã era usada como ferramenta de propaganda do regime. Everaldo, um homem simples, de origem humilde, representava a face popular daquela conquista. Sua morte súbita, fora dos estádios, revelou uma verdade incômoda: depois do êxito, os craques voltavam para casa — e muitos, como ele, enfrentavam uma realidade dura, longe dos holofotes.
Everaldo não foi apenas o primeiro tricampeão a falecer. Ele foi o primeiro a nos lembrar que a glória no futebol é efêmera e que a vida de um atleta, especialmente de décadas atrás, raramente tinha a estrutura de proteção financeira e emocional que hoje se discute. Naquela época, não havia contratos milionários, redes de apoio ou preparação para a aposentadoria. Havia o talento, o gol — e, depois, o silêncio.
Neste 28 de outubro de 2026, a data serve como um convite à reflexão sobre como o esporte trata seus ídolos. Everaldo tinha apenas 30 anos e deixou esposa e filhos. Sua história, embora menos badalada que a de Pelé ou Garrincha, carrega a mesma intensidade dramática: a do atleta que deu tudo pelo país e que, na primeira curva da vida, encontrou o fim sem aviso.
Falar de Everaldo hoje é também falar da memória. Entre os 11 titulares de 1970, ele foi o primeiro a partir. Depois vieram outros, em diferentes momentos, até que em 2022, com a morte de Mario Zagallo, o país se despediu de um dos pilares da comissão técnica, e em 2023, com a perda de Pelé, o último grande símbolo daquela era se foi. Mas Everaldo teve o pioneirismo triste de inaugurar o adeus — e, por isso, merece ser lembrado não apenas como lateral, mas como o primeiro capítulo de uma despedida que ainda dói no coração do torcedor brasileiro.
Ao completar 52 anos de sua partida, a reflexão é inevitável: quantos Everaldos existem hoje, anônimos ou sem o devido reconhecimento, vivendo à sombra do que um dia foram? O futebol brasileiro precisa honrar não somente os gols e defesas, mas também as histórias de quem ajudou a construir a paixão nacional.
Everaldo partiu cedo, mas sua marca na história é eterna. O primeiro tricampeão a falecer — e, talvez, um dos mais esquecidos — nos deixa uma lição: a verdadeira homenagem a um ídolo não acontece apenas no dia da conquista, mas em todos os dias em que nos lembramos de sua existência e do que ele representou.
**Fontes**
As informações sobre a vida, a carreira e a morte de Everaldo são baseadas em registros históricos da imprensa esportiva brasileira da época, incluindo acervos do Jornal do Brasil, O Globo e Folha de S.Paulo, além de arquivos da FIFA e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) sobre a Copa do Mundo de 1970. As homenagens e depoimentos de colegas de seleção foram amplamente documentados em reportagens de periódicos nacionais no período entre 1974 e 2022, sempre citando fontes diretas e verificáveis.
Por Renan Filho · 2026-10-28