**Lead**
A relação entre o eleitorado evangélico e a política brasileira ganha novo contorno com o estudo dos pesquisadores Gabriel Casalecchi e Victor Coelho, que aponta uma tendência consistente: os evangélicos votam à direita mesmo quando não há indicação formal de candidatos por parte das lideranças religiosas. O comportamento, observado em diferentes recortes regionais e temporais, não se limita a uma adesão cega a pastores ou bispos, mas reflete uma afinidade orgânica com pautas conservadoras que, nos últimos ciclos eleitorais, atravessaram também o campo econômico.
**Contexto**
O estudo, conduzido por Casalecchi e Coelho, analisa o comportamento do eleitor evangélico em eleições presidenciais e legislativas. Em vez de focar apenas na influência institucional das igrejas, os pesquisadores avaliam a decisão de voto como um fenômeno sociológico mais amplo. A conclusão é que a direita atrai esse eleitorado por uma convergência de valores morais e, de forma crescente, por uma visão de economia que prioriza liberdade individual, menos intervenção estatal e defesa do empreendedorismo.
Historicamente, a base evangélica brasileira, especialmente as igrejas pentecostais e neopentecostais, concentrava-se nas periferias urbanas e entre populações de menor renda. Nas últimas décadas, no entanto, houve uma ascensão econômica desse grupo, com maior participação no mercado de trabalho formal, no pequeno comércio e em serviços. Essa mobilidade social acompanhou uma mudança de percepção sobre o papel do Estado: muitos passaram a enxergar políticas de transferência de renda como menos importantes do que a liberdade para empreender e a segurança jurídica para investir.
A pesquisa também destaca que a ausência de indicação explícita da igreja não enfraquece essa preferência política. Ao contrário, sugere que o voto à direita já está incorporado à identidade social e cultural de grande parte dos fiéis. Líderes religiosos, nesse cenário, atuam mais como reforço de uma tendência já existente do que como definidores do voto.
**Análise**
Para a economia brasileira, esse fenômeno tem consequências diretas. Um eleitorado evangélico inclinado à direita tende a apoiar reformas que reduzam o tamanho do Estado, como a reforma administrativa e a desregulamentação de setores produtivos. Também tende a ser favorável a políticas de simplificação tributária e a um ambiente de negócios mais amigável ao pequeno empreendedor, que é uma fatia expressiva dos fiéis.
Além disso, a convergência entre pauta moral e pauta econômica cria um bloco político coeso em torno de uma agenda de corte de gastos públicos e responsabilidade fiscal. Isso influencia candidatos e partidos a incorporarem elementos dessa visão em seus programas de governo, especialmente em momentos de crise fiscal. O apoio a medidas de ajuste, porém, não é incondicional: o estudo indica que a lealdade à direita depende da percepção de que essas políticas não prejudicam diretamente a renda das famílias mais pobres.
Outro ponto relevante é o impacto no mercado de consumo. O fortalecimento de um eleitorado evangélico economicamente conservador impulsiona setores como o de serviços financeiros, tecnologia e varejo, que passam a enxergar nesse público uma fatia de mercado com alta propensão ao crédito e ao consumo consciente. Empresas adaptam seus produtos e comunicação para atender aos valores desse grupo, o que gera um ciclo de retroalimentação entre comportamento político e comportamento econômico.
A pesquisa também sugere que partidos de centro e de esquerda, ao tentarem atrair o voto evangélico, muitas vezes focam apenas em concessões simbólicas em temas morais, subestimando o peso das propostas econômicas. Isso explica, em parte, a dificuldade desses partidos em reverter a vantagem da direita entre os fiéis, mesmo quando apresentam candidatos com boa avaliação em políticas sociais.
Em um cenário de polarização, a autonomia do voto evangélico em relação às indicações eclesiásticas representa um desafio para os cientistas políticos e estrategistas de campanha. Para os economistas, é um sinal de que a agenda de reformas estruturantes pode encontrar um terreno fértil se conseguir dialogar com os interesses práticos desse eleitorado, que combina valores religiosos com aspirações de ascensão social e estabilidade econômica.
**Fontes**
Gabriel Casalecchi e Victor Coelho, pesquisadores responsáveis pelo estudo sobre o comportamento eleitoral dos evangélicos no Brasil. O trabalho não foi publicado em veículo de imprensa, mas é referenciado em círculos acadêmicos de ciência política e economia comportamental, e suas conclusões foram utilizadas para a elaboração desta análise com base em dados públicos e observações de tendências eleitorais.
O FORTIS NEWS buscou contato com os autores para comentários, mas até o momento desta edição não obteve retorno. As informações aqui apresentadas são de caráter analítico e baseiam-se exclusivamente no conteúdo do estudo e em fatos amplamente divulgados pela imprensa nacional sobre o comportamento do eleitorado brasileiro nas últimas eleições.
Por Renan Filho · 2026-09-30