A pauta das relações exteriores invadiu o debate eleitoral brasileiro de forma inesperada. Com o presidente Lula escalado para discursar na abertura da 79ª Assembleia Geral da ONU em Nova York, no próximo dia 22, o principal tema nos bastidores da campanha não é a Amazônia, nem a reforma tributária. É a profundidade do alinhamento do Brasil com os Estados Unidos.
Parlamentares da oposição, como o deputado federal e pré-candidato à Presidência Kim Kataguiri (União Brasil), já afirmaram em entrevista à Rádio Jovem Pan que o governo Lula “entregou de bandeja a soberania nacional” ao aceitar acordos ambientais e de defesa que favorecem interesses americanos. “Lula vai a Nova York pedir dinheiro para o Fundo Amazônia, mas esquece de dizer que o dinheiro vem com condicionantes que atrasam o agronegócio e encarecem a energia”, disse o parlamentar.
A pressão sobre Lula cresce no momento em que o governo tenta costurar uma narrativa de independência. Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores negou qualquer alinhamento automático com os EUA e classificou a visita como “oportunidade para defender os interesses nacionais em temas como comércio, clima e reforma da governança global”. O problema, como mostram os fatos, é que o Brasil já está comprometido com uma agenda que limita sua margem de manobra.
O contexto é de redefinição geopolítica. Desde que voltou ao poder, Lula restabeleceu o diálogo com o governo Biden, retomou parcerias ambientais e assinou acordos de cooperação tecnológica. Em contrapartida, a China continua sendo o maior parceiro comercial do Brasil, com mais de US$ 150 bilhões em trocas bilaterais em 2025. A oposição liberal, pelo contrário, defende um alinhamento claro com os EUA, mas não subordinado – e sim com tratados de livre comércio e redução de barreiras.
Por que isso importa? Porque o discurso de Lula na ONU pode selar o tom da campanha eleitoral. Se ele fizer críticas ao protecionismo americano e exaltar a parceria com a China, o governo será atacado por dependência de Pequim. Se abraçar a retórica ambientalista de Washington, as alas do agronegócio e da indústria de óleo e gás – que já reclamam de amarras regulatórias – vão se sentir traídas. O pré-candidato Tarcísio de Freitas (Republicanos) já afirmou, em evento em São Paulo, que “o Brasil não pode ser colônia nem de Washington nem de Pequim. Precisa de um projeto nacional de desenvolvimento que respeite o livre mercado e a soberania”.
A análise FORTIS: o dilema é falso. O liberalismo propõe justamente o que o governo atual evita: abertura comercial sem patrulhamento ideológico. Os EUA não são um adversário, mas tampouco um tutor. O que se vê é o PT repetindo o mesmo erro histórico – usar a política externa como vitrine para conquistar capital político doméstico. O alinhamento com os democratas americanos serve para agradar a base internacionalista e ambientalista, enquanto a China é cortejada para manter o fluxo de comércio que sustenta pautas populistas. No fim, o Brasil perde: deixa de negociar acordos bilaterais diretos com os EUA, como um tratado de livre comércio que reduziria tarifas e atrairia investimentos, enquanto se torna mais refém de commodities.
O contraponto, vindo de setores do próprio governo, é que a política externa independente e multifacetada teria rendido ao Brasil a presidência do G20 e a indicação de diplomatas para cargos na ONU. Em declaração à agência Reuters, o chanceler Mauro Vieira afirmou que “o Brasil não precisa escolher entre Estados Unidos e China. Podemos ter boas relações com ambos e isso nos fortalece”. O argumento, no entanto, ignora os custos de transação: acordos exigem concessões recíprocas, e a ausência de uma prioridade clara enfraquece o poder de barganha.
Na prática, o debate eleitoral já começou a definir que o próximo presidente terá que responder a uma pergunta incômoda: com que bloco o Brasil realmente se alinhará? Os pré-candidatos liberais, como o senador Sergio Moro (União Brasil) e o governador Romeu Zema (Novo), têm defendido a adesão ao Acordo de Comércio EUA-Brasil, uma proposta que tramita no Congresso e que, se aprovada, poderia aumentar o PIB brasileiro em até 2% ao ano, segundo estudo do Instituto Millenium.
Enquanto Lula prepara seu discurso, nos corredores da ONU já circula o rumor de que o governo Biden pressionará o Brasil a endurecer as regras de desmatamento e a aceitar cláusulas de propriedade intelectual que favoreçam farmacêuticas americanas. Tudo isso em troca de um apoio vago ao pleito brasileiro por um assento permanente no Conselho de Segurança. Um negócio de aparência vantajosa, mas que na prática engessa a economia nacional.
O eleitor precisa enxergar o jogo. Por trás das palavras inflamadas sobre soberania e desenvolvimento sustentável, esconde-se uma escolha real: autonomia com liberdade econômica ou subordinação disfarçada de protagonismo. O discurso de Lula na ONU pode não responder a essa questão, mas ela já está na mesa de votação.
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**1. Por que a oposição liberal critica a política externa de Lula em relação aos EUA?**
A oposição liberal, representada por pré-candidatos como Kim Kataguiri e Tarcísio de Freitas, entende que o governo Lula está promovendo um alinhamento ideológico com a administração Biden, sem contrapartidas comerciais concretas. Eles defendem que o Brasil negocie acordos de livre comércio com os EUA, em vez de aceitar condicionantes ambientais e de governança que limitam a atividade do agronegócio e da indústria. A crítica central é que o PT usa a pauta ambiental como moeda de troca para ganhar prestígio internacional, às custas do desenvolvimento econômico do país.
**2. Qual é a posição dos liberais sobre a relação com os EUA e a China?**
Os liberais, de forma geral, não veem necessidade de escolher um único parceiro, mas defendem que o Brasil adote uma estratégia de abertura comercial irrestrita. Isso significaria negociar simultaneamente acordos de livre comércio com os EUA e com a China, reduzindo tarifas e barreiras não tarifárias. A diferença em relação ao governo Lula está na prioridade: enquanto o PT busca alianças geopolíticas (como a defesa de uma nova ordem global), os liberais querem resultados econômicos mensuráveis, como aumento de exportações, atração de investimentos e competitividade para o setor privado. Para eles, a política externa deve servir ao mercado, e não a projetos partidários.
Por Renan Filho · 2026-09-21