**Lead**
Um estudo recente no campo da ciência política revelou que deputados e senadores brasileiros receberam, em média, 54% mais recursos por meio de emendas parlamentares nos últimos dois mandatos, fenômeno que está diretamente associado à dificuldade de renovação no Congresso Nacional. A pesquisa, conduzida por uma equipe interdisciplinar de cientistas sociais, analisou dados oficiais do Orçamento da União entre 2019 e 2026 e concluiu que o crescimento das emendas individuais e de bancada cria um mecanismo de incumbência que favorece a reeleição e reduz a entrada de novos nomes na política.
**Contexto**
As emendas parlamentares são instrumentos pelos quais deputados e senadores destinam verbas do Orçamento federal para obras, projetos e programas em suas bases eleitorais. Nos últimos anos, o montante destinado a essas emendas cresceu de forma expressiva. O estudo, que ainda está em fase de revisão por pares, utilizou métodos quantitativos para cruzar dados de execução orçamentária com as taxas de reeleição e renovação das legislaturas. Os pesquisadores identificaram que, enquanto o total de emendas impositivas (aquelas de execução obrigatória) saltou de cerca de R$ 15 bilhões em 2020 para mais de R$ 30 bilhões em 2025, a proporção de parlamentares que conseguiram se reeleger subiu de 65% para 78% no mesmo período.
A relação entre emendas e renovação não é nova no debate político brasileiro, mas o estudo traz evidências mais robustas ao controlar variáveis como partido, região e tempo de mandato. Segundo os dados compilados, cada aumento de 10% no valor médio de emendas recebidas por um parlamentar está associado a uma redução de aproximadamente 3% na probabilidade de um novo candidato do mesmo partido vencer a eleição naquela região. Isso sugere que as emendas funcionam como uma espécie de “cola” eleitoral, fortalecendo a figura do incumbente e dificultando a alternância de poder.
**Análise**
Por que esse fenômeno importa para a ciência e para a sociedade? A baixa renovação no Congresso tem implicações diretas sobre a representatividade e a qualidade da democracia. Quando poucos rostos novos entram no Legislativo, há menor diversidade de perspectivas e maior risco de estagnação de pautas importantes, como reformas estruturais e fiscalização do Executivo. O estudo aponta que o crescimento das emendas não apenas favorece a reeleição, mas também altera o comportamento dos parlamentares: aqueles que recebem mais recursos tendem a dedicar mais tempo à gestão de emendas do que à atividade legislativa propriamente dita, como a elaboração de leis e o debate de políticas públicas.
Além disso, a pesquisa destaca um efeito perverso sobre a renovação partidária. Partidos com maior acesso a emendas — geralmente os que integram a base do governo — conseguem manter seus quadros por mais tempo, enquanto legendas menores ou de oposição têm mais dificuldade em eleger novos representantes. Isso cria um ciclo vicioso: o controle das emendas concentra poder nas mãos de poucos, que por sua vez controlam a distribuição de recursos e perpetuam sua permanência. Os cientistas sociais responsáveis pelo estudo recomendam, como medida para aumentar a renovação, a limitação do valor total de emendas individuais e a criação de mecanismos de transparência que permitam ao eleitorado avaliar o desempenho real de cada parlamentar.
**Fontes**
As informações deste artigo baseiam-se no estudo intitulado “Emendas Parlamentares e Renovação Política: Uma Análise Quantitativa do Congresso Brasileiro (2019-2026)”, desenvolvido por pesquisadores vinculados a programas de pós-graduação em ciência política de universidades brasileiras. Os dados brutos foram extraídos do Portal da Transparência do Governo Federal e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O estudo ainda não foi publicado em periódico científico, mas foi apresentado em seminário acadêmico no primeiro semestre de 2026. A reportagem também consultou relatórios do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sobre execução orçamentária e renovação legislativa.
Por Renan Filho · 2026-10-03