**Lead**
Um estudo internacional conduzido por pesquisadores da Universidade de Essex, na Inglaterra, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), analisou dados de mais de 12 mil brasileiros ao longo de uma década e encontrou uma correlação estatística inusitada: eleitores canhotos tendem a se identificar com partidos de centro-esquerda e esquerda em proporção ligeiramente maior do que destros. A pesquisa, que ainda aguarda revisão por pares, cruzou testes de lateralidade com resultados eleitorais por seção de voto e questionários socioculturais. O efeito, embora pequeno, se manteve mesmo após o controle de renda, escolaridade e região. Mas o que explica essa relação? E o que ela realmente significa para o debate político brasileiro?
**Contexto**
O estudo utilizou dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELS-Brasil), uma das maiores pesquisas do gênero no país, e os comparou com o resultado do 2º turno das eleições presidenciais de 2022 em 2.300 municípios. Os pesquisadores também aplicaram um questionário de valores políticos a uma amostra de 1.500 voluntários, medindo fatores como autoritarismo, abertura à experiência e preferência por mudança ou estabilidade.
Resultado: entre os canhotos, 54% declararam voto em candidatos de esquerda, contra 46% dos destros. Já entre os destros, 58% optaram por candidatos de direita ou centro-direita, contra 42% dos canhotos. A diferença é maior entre homens do que entre mulheres, e mais acentuada nas faixas etárias mais jovens.
A explicação neurocientífica, ainda especulativa, envolve a assimetria funcional do cérebro. Canhotos frequentemente apresentam um corpo caloso mais espesso e uma ativação mais equilibrada entre os hemisférios. Isso estaria associado a um processamento menos hierárquico de informações e a uma maior tolerância a ambiguidades — características historicamente ligadas a posicionamentos políticos mais progressistas. Por outro lado, destros tendem a ter uma dominância hemisférica esquerda mais forte, associada a preferência por hierarquia, ordem e tradição.
Os próprios autores do estudo, no entanto, fazem uma ressalva: a correlação é fraca (r = 0,11) e não é possível estabelecer relação causal. "Não estamos dizendo que a mão dominante determina o voto. Há uma miríade de fatores culturais, econômicos e familiares que pesam muito mais. Mas a associação é consistente e merece investigação aprofundada", afirma um dos coordenadores, o neurocientista britânico Dr. Alastair Whitfield.
**Análise FORTIS**
Sob a ótica liberal-conservadora, essa pesquisa é um prato cheio para dois erros opostos: o determinismo biológico e o culturalismo radical. De um lado, há quem queira transformar um dado estatístico em destino, sugerindo que canhotos são "naturalmente" progressistas e que, portanto, políticas identitárias seriam uma decorrência inevitável. Isso é um equívoco perigoso. A ciência mostra uma correlação, não uma sentença. Reduzir o ser humano a um lado do corpo é tão tosco quanto reduzi-lo a uma cor de pele ou a um cromossomo.
De outro lado, há os que negam qualquer influência biológica na formação de ideias, como se o cérebro fosse uma folha em branco. A verdade, como sempre, está no meio. A genética e a neurofisiologia influenciam traços de personalidade, que por sua vez interagem com o ambiente. Isso não justifica cotas para canhotos nem políticas públicas para "minorias manuais". Pelo contrário: se a diversidade humana é natural, a liberdade individual e o livre mercado são os únicos sistemas que respeitam essa complexidade, permitindo que cada um encontre seu caminho sem o carimbo do Estado.
Para o liberal-conservador, a lição é clara: não se deve legislar com base em estatísticas cerebrais. A função do Estado é garantir o direito à vida, à liberdade e à propriedade — não classificar cidadãos por sua lateralidade para distribuir benesses ou culpas. A ciência deve informar, jamais ditar dogmas.
**1. Ser canhoto significa que sou obrigatoriamente de esquerda?**
Não. A correlação encontrada é fraca e não determina ninguém individualmente. Muitos canhotos são conservadores e muitos destros são progressistas. A lateralidade é apenas um dos inúmeros fatores que influenciam a personalidade, e o ambiente familiar e cultural tem peso muito maior.
**2. Esse estudo pode ser usado para justificar políticas públicas?**
Esperamos que não. Políticas baseadas em características inatas (como raça, gênero ou, agora, lateralidade) violam o princípio da igualdade perante a lei e criam divisões artificiais. O estudo é interessante para a compreensão da mente humana, mas não deve virar manual de governo.
**3. Por que a direita deveria se importar com esse tipo de pesquisa?**
Porque entender o eleitor é essencial em uma democracia. Se a direita quer ampliar sua base, precisa dialogar com todos os grupos, inclusive com canhotos que se identificam com pautas liberais. Rotular pessoas com base em um traço biológico é um tiro no pé. A mensagem deve ser universal: liberdade e responsabilidade para todos, independentemente da mão dominante.
**Conclusão**
A ciência avança ao investigar a relação entre cérebro e comportamento político. Mas não devemos nos curvar a um novo determinismo biológico. A grandeza do ser humano está em sua capacidade de transcender suas predisposições naturais por meio da razão, da cultura e da liberdade. No fim, o que importa não é a mão que você usa para assinar, mas o que você decide fazer com a cabeça e o coração.
Por Renan Filho · 2026-09-27