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Canhotos tendem a ser mais progressistas? Estudo internacional chega ao Brasil e expõe nova variável política

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-27

Pesquisadores da Universidade de Oxford e da USP analisam correlação entre lateralidade manual e orientação ideológica. Resultados indicam viés estatístico relevante, mas causam controvérsia entre cientistas políticos e neurocientistas.

Um estudo conduzido em parceria pela Universidade de Oxford, a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto de Neurociências de Buenos Aires está gerando debate no meio acadêmico e político brasileiro. A pesquisa, divulgada nesta semana, investiga a relação entre a preferência manual (ser canhoto, destro ou ambidestro) e a escolha política dos eleitores, com foco nas eleições presidenciais de 2022 e 2018. Os resultados preliminares sugerem que, no Brasil, pessoas canhotas tendem a votar em candidatos de esquerda e centro-esquerda com frequência 18% maior do que a média da população. O estudo ainda está em fase de revisão por pares, mas já levanta questões sobre o peso de fatores biológicos na formação de preferências políticas.

A metodologia envolveu a aplicação de questionários comportamentais e testes de lateralidade em uma amostra de 12 mil brasileiros de todas as regiões, controlada por renda, escolaridade e idade. Os participantes foram questionados sobre sua preferência manual (qual mão usam para escrever, cortar com tesoura, arremessar uma bola) e sobre seu voto nos dois últimos pleitos presidenciais. Os dados foram cruzados com o histórico de votação por seção eleitoral em 2.400 zonas do país. O viés encontrado foi mais forte entre eleitores de 18 a 35 anos, e entre moradores das regiões Sul e Sudeste.

A neurocientista brasileira Dra. Helena Torres, uma das autoras do estudo, explicou em entrevista à Agência FAPESP que a descoberta não implica determinismo biológico. "O que observamos é uma correlação estatística significativa, mas não causal. Pessoas canhotas têm, em média, maior ativação do hemisfério direito do cérebro, associado à criatividade e à empatia, o que pode facilitar uma visão coletivista. No entanto, o ambiente social, a educação e a cultura pesam muito mais", afirmou a pesquisadora, cuja fala foi registrada no boletim científico da USP.

O estudo, no entanto, foi recebido com ceticismo por parte de analistas políticos liberais-conservadores. O professor de ciência política da FGV-SP, Luis Carlos Mendes, apontou que a amostra pode conter viés de seleção. "Em países como o Brasil, onde a polarização política é extrema, fatores triviais, como a mão dominante, podem ser confundidos com variáveis regionais e econômicas. Canhotos são, estatisticamente, mais jovens e mais urbanizados, e isso já explica boa parte da preferência por candidatos progressistas", declarou Mendes, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo.

A pesquisa também analisou dados de outros países, como Estados Unidos e Reino Unido, onde a correlação foi mais fraca, mas ainda presente: canhotos americanos têm 12% mais chance de votar em democratas, e canhotos britânicos, 9% mais chance de apoiar partidos trabalhistas. A divergência entre países sugere que o fator cultural modula a influência neurológica. "No Brasil, a associação parece mais forte porque o debate político incorpora pautas identitárias e de diversidade, temas que ecoam em redes neurais associadas à empatia", acrescentou a Dra. Helena Torres.

**Análise FORTIS**

Do ponto de vista liberal-conservador, a pesquisa é um convite à reflexão, mas não deve ser usada para justificar políticas de ação afirmativa ou para estigmatizar grupos. A liberdade individual e o mérito são valores que independem de características físicas ou neurológicas. O fato de existir uma correlação entre lateralidade e voto não invalida o princípio de que as escolhas políticas devem ser baseadas em ideias, propostas e resultados, e não em traços biológicos inatos. O estudo pode até ter valor acadêmico, mas seu potencial de ser mal interpretado por ativistas para discriminar destros ou canhotos é real. O FORTIS News adverte: a ciência deve servir ao conhecimento, não à criação de novas divisões sociais. A sociedade brasileira já está cansada de rótulos — não precisa de mais um.

**O estudo conclui que ser canhoto é de esquerda?** Não. A pesquisa mostra correlação estatística, não causalidade. A maioria dos canhotos não vota necessariamente à esquerda; o dado é apenas uma tendência moderada. Destros também votam à esquerda em grande número.

**A pesquisa foi publicada em revista científica?** Ainda não. O preprint está disponível no repositório da USP, e o artigo passará por revisão por pares. Os resultados são preliminares.

**Como a lateralidade manual é determinada?** Por um questionário padronizado (Escala de Edimburgo), que pergunta qual mão a pessoa usa para 10 atividades cotidianas. Ambos os sexos e faixas etárias foram considerados.

**Isso pode ser usado para prever eleições?** Não, e os autores desaconselham. A correlação é fraca demais para ser preditiva em nível individual, e fatores como renda, educação e região pesam muito mais.

**O que dizem os críticos?** Cientistas políticos da UnB e da FGV apontam que o estudo não controla adequadamente o efeito de variáveis socioeconômicas, como idade e escolaridade — que também se correlacionam com ser canhoto. A amostra, alertam, pode ser tendenciosa.

**O FORTIS News recomenda alguma ação política com base nesses dados?** Não. A liberdade de escolha política é individual, e qualquer tentativa de condicioná-la a características físicas é contrária ao liberalismo. A melhor política pública é garantir educação de qualidade para todos, independentemente da mão dominante.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.