A Polícia Federal apresentou à Justiça nesta quinta-feira (25) elementos que indicam a participação do ex-secretário especial de Cultura Mario Frias em um suposto esquema de desvio de recursos públicos. De acordo com relatório obtido pelo portal Brasil, a investigação, batizada de “Dark Horse”, aponta para o envolvimento de advogados, secretários municipais e estaduais, além de intermediários, na montagem de contratos superfaturados e na criação de empresas de fachada.
A apuração teve início em 2024, após auditoria interna da Controladoria-Geral da União identificar movimentações atípicas em convênios firmados pela Secretaria de Cultura com organizações sociais. Os valores, que somam aproximadamente R$ 18 milhões, teriam sido pulverizados por meio de contratos de prestação de serviços de consultoria e eventos culturais que nunca foram realizados.
Mario Frias, que ganhou notoriedade como ator e atuou como secretário de Cultura entre 2020 e 2022, já havia sido alvo de ações na Justiça por supostas irregularidades em sua gestão. Em declarações anteriores à imprensa, ele sempre negou qualquer envolvimento com desvios e afirmou que as acusações são “perseguição política”. Desta vez, sua defesa ainda não se manifestou oficialmente.
A Polícia Federal afirma que o esquema contava com a participação de advogados que atuavam como “laranjas” — abrindo contas bancárias e registrando empresas em nome de terceiros. Um dos escritórios mencionados nos autos é o mesmo que já prestou serviços para campanhas de políticos de diferentes partidos, o que sinaliza a transversalidade do problema: o uso da máquina pública para financiar interesses privados não é monopólio ideológico.
Levantamento do Tribunal de Contas da União, citado pela PF, mostra que ao menos 12 municípios em cinco estados receberam repasses irregulares via convênios culturais. Em nenhum deles há comprovante de que os eventos ou cursos previstos tenham ocorrido. A suspeita é que os recursos tenham sido desviados para campanhas políticas locais, inclusive de aliados de Frias em eleições passadas.
A relação do ex-secretário com o mundo jurídico e político, segundo a investigação, incluiu a nomeação de secretários estaduais de Cultura que, em tese, facilitariam a aprovação de contratos. Um dos nomes citados é o de um ex-secretário do Rio de Janeiro, que teria recebido vantagens indevidas para avalizar parcerias com ONGs suspeitas.
Para além dos indivíduos, o caso expõe uma falha sistêmica do modelo atual de financiamento cultural. O Estado brasileiro — que tributa excessivamente o setor produtivo — canaliza bilhões de reais para projetos que, na prática, viram moeda de troca político-eleitoral. Sob o guarda-chuva de leis de incentivo e convênios diretos, a falta de transparência e de mecanismos de controle transforma o dinheiro do contribuinte em combustível para esquemas.
A PF destaca que a operação ainda está em fase de análise de dados bancários e quebra de sigilos telemáticos. O prazo para conclusão das investigações é de 90 dias, podendo ser prorrogado. Até o momento, não há mandados de prisão expedidos, mas há recomendações para afastamento de cargos públicos de três secretários envolvidos.
A Fortis News apurou que, em nota à imprensa na tarde de hoje, a Advocacia-Geral da União informou que acompanha o caso e que, “se comprovadas as irregularidades, adotará as medidas administrativas e judiciais cabíveis”. Procurado, o Ministério Público Federal não se pronunciou até o fechamento desta edição.
O caso é mais um exemplo de que a promessa de “Estado mínimo” não significa ausência de controle, mas sim eficiência na gestão dos recursos. O contribuinte — que já paga uma das maiores cargas tributárias do mundo — merece saber onde cada centavo é aplicado. Esquemas como o de Frias, independentemente de partido ou ideologia, revelam o quanto a máquina estatal pode ser capturada por interesses privados quando faltam regras claras e fiscalização independente.
O que diferencia o liberal-conservadorismo genuíno da simples demagogia é a recusa em defender qualquer malfeito, seja de aliados ou adversários. Se a investigação confirmar os indícios, que Frias e seus associados respondam conforme a lei. Nada de corporativismo, nada de foro privilegiado que proteja os corruptos.
**Contraponto:** É importante registrar que Mario Frias ainda não teve condenação transitada em julgado nem foi formalmente denunciado pelo Ministério Público. A fase atual é de investigação policial, que deve respeitar o devido processo legal. Muitos dos elementos apresentados pela PF são indícios, não provas conclusivas. O princípio da presunção de inocência não pode ser ignorado, mesmo em casos rumorosos.
Por Renan Filho · 2026-09-25