A Esfera Brasil, entidade que congrega empresários e executivos, promoverá um encontro com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo a coluna Painel, da Folha de S.Paulo. A reunião será a primeira de uma série de eventos com presidenciáveis para as eleições de 2026. O movimento sinaliza que o setor produtivo quer se antecipar ao calendário eleitoral e conhecer, de perto, quem são as cartas que estão na mesa.
O evento com Lula, porém, não pode ser lido como um apoio automático. O ex-presidente tenta se apresentar como um estadista conciliador, mas carrega um histórico de políticas intervencionistas e de relações promíscuas com o Estado. No comando do país, Lula tratou o BNDES como braço político, expandiu o gasto público e conduziu o governo como um grande gerente do mercado, em vez de um guardião das regras.
Por que isso importa? Porque a economia brasileira atravessa um momento delicado, com juros elevados, inflação persistente e um ambiente de negócios hostil ao empreendedor. Ouvir todos os presidenciáveis é uma necessidade pragmática, mas o empresariado que recebe Lula precisa ter a mesma energia para cobrar compromissos concretos com a liberdade econômica, a responsabilidade fiscal e a segurança jurídica. A mera presença em um evento não substitui a exigência de propostas sólidas.
Análise FORTIS: o encontro é um teste duplo. Lula quer demonstrar que amadureceu e que pode ser confiável para o capital; o mercado, por sua vez, quer mostrar que não é radical, mas também não é ingênuo. A história, no entanto, cobra coerência. O mesmo Lula que hoje fala em diálogo é o que, na campanha de 2022, criticou o teto de gastos e prometeu rever reformas. O liberalismo precisa enxergar essa contradição e não se deixar encantar por um discurso de ocasião.
Contraponto: é preciso reconhecer que o diálogo com forças políticas diversas é um princípio democrático. O mercado não pode se dar ao luxo de ignorar quem tem chances reais de vencer uma eleição. Além disso, Lula teve momentos de moderação econômica em seu primeiro mandato, quando manteve a política de superávit primário e a inflação sob controle. Isso gera um mínimo de expectativa de que ele seja capaz de fazer uma gestão menos aventureira do que a vista no ambiente ideológico que o cerca.
Mas o contraponto não elimina o risco. A Esfera Brasil, ao abrir espaço para Lula, também abre espaço para que o eleitorado observe como o ex-presidente reage diante de perguntas incômodas. Ele precisará explicar suas relações com o centrão, os erros de seu governo e o que fará diferente para destravar o país. O Brasil não pode recair no erro de acreditar em salvadores da pátria, especialmente naqueles que já tiveram a chance de governar e deixaram um legado de expansão estatal.
O evento, portanto, é mais um capítulo da pré-temporada eleitoral. Para o empresariado, a lição é clara: ouvir é obrigação, mas acreditar sem cobrar é irresponsabilidade. O liberalismo não é uma carteirinha de membro; é uma visão de mundo que exige vigilância constante. Receber Lula em um auditório é permitido; abrir mão dos princípios que garantem o livre mercado, isso jamais.
Por Renan Filho · 2026-09-22