**Lead**
Um grupo de entidades civis e órgãos de controle financeiro protocolou nesta quinta-feira, 9 de outubro de 2026, um pedido formal de suspensão de uma criptomoeda que recompensa financeiramente usuários que publicam conteúdo sobre as eleições de 2022, especificamente associado ao chamado 'voto 22'. O requerimento foi encaminhado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Banco Central do Brasil, alegando que o mecanismo pode incentivar a disseminação de desinformação e comprometer a integridade do processo democrático.
**Contexto**
A criptomoeda em questão, cujo nome não foi divulgado oficialmente pelas entidades, opera por meio de uma plataforma descentralizada que remunera autores de posts em redes sociais sempre que o conteúdo menciona o termo 'voto 22' ou variações relacionadas ao pleito presidencial de 2022. A recompensa é paga em tokens digitais, que podem ser convertidos em moeda corrente ou utilizados em outras transações dentro do ecossistema da plataforma.
O modelo de negócio se baseia em contratos inteligentes que identificam automaticamente publicações com palavras-chave pré-definidas e distribuem valores proporcionais ao engajamento — curtidas, compartilhamentos e comentários. Embora a tecnologia blockchain garanta transparência nas transações, especialistas apontam que a ausência de curadoria humana e a natureza viral das redes sociais criam um ambiente propício para a propagação de informações não verificadas.
A iniciativa surgiu no início de 2026, quando desenvolvedores anônimos lançaram o projeto como uma forma de 'incentivar a participação política'. No entanto, rapidamente atraiu a atenção de entidades de monitoramento eleitoral, que identificaram um padrão de publicações repetitivas e, em muitos casos, com conteúdo distorcido ou falso sobre o resultado das urnas de 2022.
**Análise**
O pedido de suspensão reflete uma preocupação crescente com o uso de criptomoedas como ferramenta de manipulação da opinião pública. Diferentemente de mecanismos tradicionais de propaganda paga, que são regulados pela legislação eleitoral e sujeitos a fiscalização, as recompensas em tokens operam em uma zona cinzenta jurídica. As entidades argumentam que o sistema viola dispositivos da Lei das Eleições que proíbem a distribuição de vantagens financeiras em troca de conteúdo político, além de burlar as regras de transparência sobre financiamento de campanhas.
O impacto potencial é significativo. Em um cenário onde a confiança nas instituições democráticas já é frágil, a possibilidade de qualquer pessoa ser paga para publicar repetidamente um mesmo tema pode amplificar narrativas sem lastro factual. A criptomoeda, ao operar de forma pseudônima e transfronteiriça, dificulta a identificação dos responsáveis e a aplicação de sanções. Caso a suspensão não seja concedida, o precedente poderá abrir caminho para outras iniciativas semelhantes, transformando o debate político em um mercado de recompensas por cliques.
Por outro lado, defensores da tecnologia argumentam que a medida representa um excesso regulatório e que a blockchain, por si só, não é responsável pelo conteúdo publicado. Eles apontam que a responsabilidade deve recair sobre os usuários e que a suspensão de uma criptomoeda inteira seria desproporcional. No entanto, as entidades contrapõem que, assim como ocorre com plataformas de redes sociais, o design do sistema incentiva comportamentos danosos, cabendo ao Estado intervir para proteger o interesse público.
**Fontes**
A informação foi obtida a partir do pedido protocolado pelas entidades, cujo teor foi divulgado em nota conjunta. O documento cita dispositivos da Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições) e da Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet), além de resoluções do TSE sobre propaganda eleitoral. O Banco Central e o TSE ainda não se manifestaram oficialmente sobre o pedido. A reportagem também consultou especialistas em direito digital e regulação de criptomoedas, que preferiram não ter seus nomes divulgados por questões de segurança profissional.
Por Renan Filho · 2026-10-09