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O presidente do Banco Central do Paraguai, José Cantero, renunciou ao cargo nesta quarta-feira (4 de novembro) após a revelação de um rombo financeiro em duas instituições bancárias de médio porte do país. A crise, que expõe fragilidades no sistema de supervisão bancária paraguaio, já preocupa autoridades brasileiras, especialmente nos estados que fazem fronteira com o Paraguai, como Mato Grosso do Sul e Paraná. O rombo, estimado em centenas de milhões de dólares, foi descoberto após uma auditoria extraordinária determinada pelo próprio Banco Central no mês passado.
**Contexto**
A crise bancária no Paraguai começou a tomar forma em outubro, quando o Banco Central do Paraguai (BCP) determinou a intervenção em duas instituições financeiras: o Banco Atlas e o Banco Regional. Ambas são instituições de capital fechado, com forte atuação no crédito ao agronegócio e no comércio de fronteira. A intervenção ocorreu após a constatação de que os bancos haviam concedido empréstimos sem garantias reais a um grupo de empresas ligadas a políticos e empresários da região de Ciudad del Este.
O presidente do BCP, José Cantero, economista de formação e nomeado em 2023 pelo presidente Santiago Peña, vinha sendo pressionado por setores do Congresso paraguaio desde que os primeiros sinais de irregularidades vieram à tona. Em depoimento à Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados na semana passada, Cantero admitiu que o órgão regulador falhou na supervisão, mas negou envolvimento direto com as operações fraudulentas. A pressão, no entanto, tornou-se insustentável após a divulgação de que o próprio irmão de Cantero, o empresário Juan Cantero, era um dos tomadores dos empréstimos suspeitos.
A renúncia foi formalizada em uma carta enviada ao presidente Santiago Peña, que já aceitou o pedido e anunciou a nomeação interina do vice-presidente do BCP, Humberto Colmán, até que um novo nome seja aprovado pelo Senado. Peña, que enfrenta sua primeira grande crise econômica desde que assumiu o cargo, em agosto de 2023, prometeu uma investigação completa e a responsabilização de todos os envolvidos.
**Analise**
A crise bancária no Paraguai não é um fenômeno isolado. Ela reflete um padrão histórico de fragilidade institucional no país, onde o sistema financeiro sempre conviveu com práticas de crédito político e baixa transparência. O fato de o presidente do Banco Central ter um parente próximo entre os beneficiários dos empréstimos irregulares escancara a promiscuidade entre o setor público e o privado no Paraguai, um problema que já havia sido apontado por organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.
Para o Brasil, os desdobramentos são imediatos. O comércio bilateral entre os dois países movimenta cerca de US$ 5 bilhões por ano, com destaque para as exportações brasileiras de produtos industrializados e a importação de energia elétrica da usina de Itaipu. Além disso, milhares de brasileiros residem no Paraguai, especialmente em Ciudad del Este e Encarnación, e muitos mantêm contas bancárias em instituições paraguaias. A intervenção nos dois bancos pode gerar restrições de crédito e dificuldades para empresas brasileiras que operam no país vizinho.
O Banco Central do Brasil (BCB) já emitiu uma nota técnica informando que monitora a situação, mas que não há risco sistêmico para o sistema financeiro brasileiro. No entanto, fontes do mercado avaliam que a crise pode acelerar a fuga de capitais do Paraguai e aumentar a demanda por dólar na região de fronteira, pressionando o câmbio e a inflação local. O governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores, também acompanha o caso, especialmente porque o Paraguai é membro do Mercosul e qualquer instabilidade econômica no país pode afetar as negociações comerciais do bloco.
**Fontes**
As informações foram obtidas a partir de comunicados oficiais do Banco Central do Paraguai, do governo paraguaio, do Banco Central do Brasil e de reportagens veiculadas pelos jornais ABC Color e Última Hora, do Paraguai, além de dados do Ministério da Economia do Brasil e do Fundo Monetário Internacional.
Por Renan Filho · 2026-11-04