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Opiniao

Quantas vezes uma eleição presidencial terminou no primeiro turno no Brasil?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-19

Desde a redemocratização, apenas duas eleições presidenciais foram decididas no primeiro turno. Entenda por que isso é raro e o que significa para o sistema político.

**Lead**

Desde a redemocratização do Brasil, em 1989, apenas duas eleições presidenciais foram decididas já no primeiro turno. As vitórias de Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998 são os únicos casos em que um candidato alcançou mais da metade dos votos válidos sem necessidade de um segundo turno. Todos os outros pleitos — 1989, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022 — exigiram uma segunda rodada para definir o vencedor.

**Contexto**

A regra do primeiro turno no Brasil exige que o candidato obtenha maioria absoluta dos votos válidos (excluídos brancos e nulos). Caso contrário, os dois mais votados disputam o segundo turno. Esse modelo, adotado na Constituição de 1988, foi inspirado em sistemas eleitorais de países como França e Argentina, com o objetivo de ampliar a representatividade e evitar vitórias com baixo apoio popular.

Nas eleições de 1994, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) venceu com 54,3% dos votos válidos no primeiro turno, impulsionado pelo sucesso do Plano Real, que estabilizou a economia e controlou a inflação. Em 1998, reelegeu-se com 53,1%, ainda sob os efeitos da estabilidade monetária e da aprovação do primeiro mandato. Desde então, nenhum outro presidente conseguiu repetir o feito.

A polarização política crescente, a fragmentação partidária e a dificuldade de construir coligações amplas no primeiro turno são fatores apontados por cientistas políticos para explicar a raridade dessas vitórias. Em 2002, Lula (PT) venceu no segundo turno contra José Serra (PSDB); em 2006, Lula reelegeu-se após derrotar Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno; em 2010, Dilma Rousseff (PT) venceu Serra no segundo turno; em 2014, Dilma derrotou Aécio Neves (PSDB) no segundo turno; em 2018, Jair Bolsonaro (PSL) venceu Fernando Haddad (PT) no segundo turno; e em 2022, Lula derrotou Bolsonaro no segundo turno.

**Análise**

A recorrência do segundo turno nas eleições brasileiras reflete uma profunda divisão do eleitorado e a ausência de candidatos que consigam capturar mais da metade dos votos já na primeira rodada. Isso não é necessariamente um problema para a democracia: o segundo turno permite que o eleitor reavalie suas escolhas e que alianças sejam formadas, resultando em governos com maior base de sustentação. Por outro lado, a necessidade de dois turnos gera custos adicionais para o Estado e alonga o período de campanha, intensificando tensões políticas.

A exceção histórica de Fernando Henrique Cardoso está diretamente ligada a um contexto econômico extraordinário — o fim da hiperinflação — e a uma aprovação popular que transcendeu divisões partidárias. Nos anos seguintes, mesmo com governos bem avaliados, como os primeiros mandatos de Lula, não houve votação suficiente para evitar o segundo turno. Isso indica que a polarização e o multipartidarismo tornaram as vitórias no primeiro turno cada vez mais improváveis.

Do ponto de vista da opinião pública, muitos eleitores veem o segundo turno como uma oportunidade de corrigir o voto ou de escolher o “mal menor”. Em 2022, por exemplo, Lula liderou o primeiro turno com 48,4%, mas precisou do segundo turno para vencer. A diferença para a maioria absoluta foi pequena, mas suficiente para demonstrar que mesmo um candidato com grande vantagem pode não alcançar o primeiro turno.

**Fontes**

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre resultados eleitorais históricos; análises de cientistas políticos publicadas em periódicos acadêmicos e veículos de imprensa como Folha de S.Paulo e O Globo; registros oficiais do portal de estatísticas eleitorais do TSE.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.