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Apenas duas vezes uma eleição presidencial terminou no primeiro turno no Brasil; entenda o padrão histórico

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-19

Desde a redemocratização em 1985, apenas dois pleitos presidenciais foram decididos na primeira etapa: 1994 e 1998, ambos com Fernando Henrique Cardoso. A raridade reflete o sistema multipartidário e a polarização crescente.

**Lead**

Desde a redemocratização do Brasil, em meados da década de 1980, a disputa presidencial tem sido um exercício de paciência e estratégia para os eleitores e candidatos. De todos os pleitos diretos realizados para o cargo máximo do Executivo, apenas dois foram decididos já no primeiro turno: as eleições de 1994 e de 1998. Em ambas, o sociólogo e então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) conquistou mais de 50% dos votos válidos, evitando a necessidade de um segundo turno. A constatação, baseada nos dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela um padrão interessante para a ciência política: a maioria das eleições brasileiras exige a segunda etapa, fenômeno que não é apenas conjuntural, mas estrutural.

**Contexto**

O sistema eleitoral brasileiro adota o modelo de maioria absoluta para a eleição do presidente da República. Isso significa que, para vencer no primeiro turno, o candidato precisa obter mais da metade dos votos válidos, excluídos os brancos e nulos. Desde a Constituição de 1988, houve nove eleições diretas para presidente (1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022). Destas, sete foram para o segundo turno. As únicas exceções foram 1994 e 1998, quando Fernando Henrique Cardoso obteve, respectivamente, 54,3% e 53,1% dos votos válidos, conforme registrado pelo TSE.

O primeiro pleito direto pós-ditadura, em 1989, foi vencido por Fernando Collor de Mello no segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2002, Lula venceu no segundo turno contra José Serra. Em 2006, Lula repetiu a vitória no segundo turno contra Geraldo Alckmin. Em 2010, Dilma Rousseff derrotou Serra no segundo turno. Em 2014, Dilma venceu Aécio Neves também no segundo turno. Em 2018, Jair Bolsonaro derrotou Fernando Haddad no segundo turno. Por fim, em 2022, Lula venceu Bolsonaro no segundo turno. A sequência mostra que, apesar da alternância de partidos e ideologias, a regra é a disputa prolongada.

**Análise**

Do ponto de vista da ciência política, a escassez de vitórias no primeiro turno pode ser explicada por uma combinação de fatores. O Brasil possui um sistema multipartidário fragmentado, que pulveriza os votos entre vários candidatos. Mesmo os candidatos mais competitivos raramente ultrapassam a barreira dos 50% na primeira rodada. A exceção de Fernando Henrique Cardoso ocorreu em um contexto específico: o sucesso do Plano Real, que controlou a inflação e gerou enorme popularidade. Na eleição de 1994, o lançamento do plano meses antes do pleito consolidou a vantagem de FHC, que já era ministro da Fazenda. Em 1998, a reeleição foi favorecida pela continuidade da estabilidade econômica e pela ausência de um adversário unificado.

Outro aspecto relevante é a polarização. Quando o eleitorado se divide em dois grandes blocos, como ocorreu a partir de 2014, a chance de um candidato alcançar 50% no primeiro turno diminui, pois os votos se concentram em dois nomes, mas cada um fica aquém da maioria absoluta. Em contraste, em 1994, a polarização era menor: FHC enfrentou Lula, mas havia outros candidatos com expressão, como Leonel Brizola e Enéas Carneiro, o que fragmentou a oposição. Mesmo assim, FHC conseguiu a maioria. A análise científica desse fenômeno sugere que vitórias no primeiro turno são eventos raros que dependem de condições econômicas favoráveis, baixa polarização e alta aprovação popular concentrada em um único nome.

**Fontes**

Este artigo foi elaborado com base nos dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), disponíveis no portal de estatísticas eleitorais. Foram consultados também estudos acadêmicos sobre o sistema eleitoral brasileiro, como os do cientista político Jairo Nicolau (mencionado como referência geral, sem citação direta) e as análises do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP). As informações históricas sobre os resultados das eleições presidenciais são de domínio público e podem ser verificadas no site do TSE e em atlas eleitorais reconhecidos.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.