**Lead**
A reta final da campanha eleitoral em Minas Gerais reserva um movimento inesperado: o deputado estadual Cleitinho, figura conhecida do bolsonarismo mineiro e candidato ao Senado, tornou-se alvo de críticas de setores da própria direita. Em vez de concentrar fogo no adversário petista, parte do campo conservador passou a questionar a postura do parlamentar, acusando-o de não ser suficientemente aguerrido no antipetismo. A estratégia, segundo analistas, busca radicalizar o eleitorado e reverter uma vantagem que, até então, parecia consolidada.
**Contexto**
Cleitinho, que se projetou nacionalmente como aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro e construiu uma imagem de combatente contra o PT, viu sua campanha ganhar contornos de disputa interna nos últimos dias. A direita mineira, historicamente fragmentada, tenta unificar o discurso em torno do antipetismo como principal motor de mobilização. No entanto, a escolha de Cleitinho como candidato único ao Senado — costurada por Bolsonaro e pelo governador Romeu Zema — não foi suficiente para pacificar os ânimos.
Setores mais radicais do conservadorismo, incluindo lideranças ligadas a movimentos de rua e pastores evangélicos, passaram a criticar abertamente o deputado. Em eventos e redes sociais, questionam sua atuação na Assembleia Legislativa e sugerem que ele não teria sido duro o suficiente em votações consideradas sensíveis, como pautas de costumes e enfrentamento ao governo Lula. A pressão ocorre em um momento em que a campanha petista em Minas Gerais tenta surfar na popularidade do presidente Lula no estado, especialmente entre eleitores do interior e das regiões metropolitanas.
O antipetismo, que sempre foi o carro-chefe da direita brasileira, ganha agora uma nova camada: a cobrança por pureza ideológica. Para analistas, o movimento reflete uma tentativa de evitar que o PT capitalize sobre eventuais divisões no campo conservador. Minas Gerais, maior colégio eleitoral do país depois de São Paulo, é visto como termômetro para as eleições presidenciais de 2026. Uma vitória da direita no Senado mineiro seria um trunfo simbólico e estratégico.
**Análise**
A virada de Cleitinho em alvo da direita revela uma dinâmica complexa dentro do bolsonarismo. Se, por um lado, o ex-presidente Bolsonaro mantém influência sobre o eleitorado conservador, por outro, a base mais radicalizada não aceita desvios ou moderações. Cleitinho, que construiu sua carreira como um político de confronto, agora precisa provar que não está “amolecendo”. A situação expõe a dificuldade da direita em manter a coesão quando o adversário principal — o PT — ainda é forte em Minas.
O recurso ao antipetismo como arma de fogo amigo também pode ter efeitos colaterais. Ao atacar Cleitinho, os setores radicais correm o risco de desmobilizar o eleitorado conservador, que pode se sentir confuso ou desiludido. Em vez de fortalecer a candidatura, a estratégia pode abrir espaço para que o PT ou mesmo candidatos de centro ganhem terreno. Pesquisas qualitativas indicam que o eleitor mineiro valoriza a estabilidade e rejeita extremismos, o que torna a radicalização um risco calculado.
Por outro lado, a direita aposta que a intensificação do antipetismo — mesmo que direcionada a um aliado — servirá para lembrar o eleitor das gestões petistas e dos escândalos de corrupção. A tática é conhecida: criar um “inimigo interno” para reforçar a identidade do grupo. No caso de Cleitinho, a pressão pode forçá-lo a adotar um tom ainda mais agressivo contra Lula e o PT, o que, na visão dos estrategistas, consolidaria o voto conservador.
**Fontes**
As informações foram baseadas em reportagens da imprensa mineira, incluindo O Tempo, Estado de Minas e UOL, além de análises de cientistas políticos ouvidos por veículos nacionais. Dados contextuais sobre o cenário eleitoral de Minas Gerais foram extraídos de arquivos públicos do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) e de levantamentos do Datafolha e do Ipec, sem que números específicos sejam citados para evitar imprecisões.
Por Renan Filho · 2026-10-03