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As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, agendadas para 3 de novembro de 2026, representam um momento de definição para o segundo mandato do presidente Donald Trump. Embora o foco da cobertura internacional esteja frequentemente na política econômica e na imigração, o pleito terá consequências profundas e muitas vezes negligenciadas para o financiamento da ciência, da tecnologia e da inovação — áreas que impactam diretamente o Brasil. A renovação de todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e de um terço do Senado (34 cadeiras) definirá o controle do Congresso e, consequentemente, a capacidade do governo Trump de aprovar orçamentos e leis que moldam o futuro da pesquisa científica.
**Contexto**
As eleições de meio de mandato (midterm elections) ocorrem no meio do ciclo presidencial de quatro anos. Diferentemente do Brasil, onde as eleições para presidente, governadores e legislativos ocorrem simultaneamente a cada dois anos, nos EUA o calendário é escalonado. O presidente não está em disputa, mas o controle do Congresso está. Historicamente, o partido do presidente perde assentos nessas eleições, um fenômeno conhecido como "onda de meio de mandato". Em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, os democratas retomaram a Câmara. Em 2022, sob Joe Biden, os republicanos conquistaram a Câmara por uma margem estreita.
Em 2026, o cenário é particularmente volátil. O Partido Republicano de Trump detém atualmente a maioria na Câmara (com 218 cadeiras contra 213 dos democratas, e quatro vagas) e no Senado (53 a 47). No entanto, as pesquisas de opinião pública indicam um desgaste do governo Trump, especialmente em temas como inflação e política externa. A oposição democrata, por sua vez, busca capitalizar o descontentamento com cortes orçamentários em áreas como saúde e educação.
Para a ciência, o que está em jogo é o orçamento de agências federais como os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), a Fundação Nacional da Ciência (NSF), a NASA e o Departamento de Energia. O governo Trump já sinalizou, em suas propostas iniciais para 2026, cortes significativos em programas de pesquisa básica, com exceção de áreas ligadas à segurança nacional e à inteligência artificial. O NIH, por exemplo, enfrenta uma proposta de redução de 20% em seu orçamento, o que afetaria diretamente pesquisas sobre câncer, doenças infecciosas e saúde pública global.
**Análise**
Por que isso importa para o Brasil? A ciência brasileira é profundamente integrada à rede global de pesquisa, e os EUA são o principal parceiro científico do país. Programas como o Ciência sem Fronteiras, que enviou milhares de brasileiros para universidades americanas, e colaborações entre a FAPESP e instituições como a NSF e o MIT dependem de um ambiente de financiamento estável nos EUA. Se o Congresso americano for controlado por democratas, é mais provável que haja resistência aos cortes propostos por Trump, mantendo ou até ampliando o orçamento para pesquisa. Por outro lado, se os republicanos mantiverem o controle, a agenda de cortes pode ser acelerada, reduzindo o número de bolsas e projetos conjuntos.
Além disso, a política de imigração e vistos para cientistas estrangeiros está na pauta. O governo Trump já endureceu as regras para vistos de trabalho e estudo (como o H-1B e o F-1), e uma vitória republicana no Congresso pode consolidar essas restrições. Isso afeta diretamente pesquisadores brasileiros que buscam pós-graduação ou pós-doutorado nos EUA. A alternativa seria um fortalecimento de parcerias com outros blocos, como a União Europeia e a China, mas a transição não é trivial e leva anos para se consolidar.
Outro ponto crítico é a regulação de tecnologias emergentes, como inteligência artificial e edição genética. O governo Trump tem adotado uma abordagem de desregulamentação, enquanto setores do Partido Democrata pressionam por mais controles éticos e de segurança. O resultado das eleições definirá o ritmo e a direção dessas políticas, que têm impacto direto sobre startups brasileiras e centros de pesquisa que colaboram com empresas americanas.
**Fontes**
As informações sobre o calendário eleitoral e a composição atual do Congresso foram obtidas junto ao site oficial do Congresso dos Estados Unidos (congress.gov) e da Comissão Eleitoral Federal (FEC). Dados sobre o orçamento proposto para agências científicas foram extraídos do relatório preliminar do Escritório de Gestão e Orçamento da Casa Branca (OMB) para o ano fiscal de 2027, disponível no site whitehouse.gov/omb. Análises de impacto sobre parcerias científicas com o Brasil foram baseadas em comunicados da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de reportagens do portal Science Magazine sobre o cenário político-científico americano.
Por Renan Filho · 2026-10-20