As eleições de 2026 no Brasil estão sendo marcadas por uma revolução silenciosa nas redes sociais. Se antes os atletas e celebridades do esporte eram os grandes protagonistas das campanhas digitais, agora a inteligência artificial (IA) e o humor ocupam o centro do palco. Uma análise do comportamento online, realizada pelo Instituto de Pesquisa em Mídias Digitais (IPMD) e divulgada em setembro de 2026, revela que o engajamento em torno de figuras esportivas caiu 47% em comparação com o pleito de 2022. O fenômeno não é isolado: reflete uma mudança estrutural na forma como o eleitor brasileiro consome informação política.
O levantamento, que monitorou 12 milhões de interações no X (antigo Twitter), Instagram e TikTok entre janeiro e setembro de 2026, mostra que os conteúdos mais compartilhados não são mais os endossos de jogadores de futebol ou ex-atletas. Em vez disso, memes gerados por IA, vídeos de humoristas independentes e paródias políticas dominam os feeds. "O esporte perdeu a exclusividade do entretenimento. Hoje, um algoritmo de IA pode criar um vídeo viral em segundos, enquanto uma celebridade esportiva precisa de semanas de treino e exposição", explica o analista de mídias digitais Carlos Alberto de Oliveira, da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao portal de notícias G1.
LEAD: O declínio do peso político dos esportes nas redes
O fenômeno é particularmente visível no futebol, paixão nacional. Durante as eleições de 2018 e 2022, jogadores como Neymar, Gabigol e até ex-atletas como Ronaldo Fenômeno eram constantemente convocados para campanhas. Em 2026, a situação é diferente. Uma pesquisa do Datafolha, publicada em 25 de setembro, indica que apenas 12% dos eleitores afirmam que a opinião de um atleta famoso influenciaria seu voto. Em 2022, esse número era de 31%. "O brasileiro está mais cético. A polarização política fez com que as pessoas desconfiassem de quem não é especialista. Um jogador de futebol, por mais ídolo que seja, não é visto como autoridade em políticas públicas", afirma o cientista político Luiz Felipe d'Avila, da Fundação Getulio Vargas (FGV), em artigo no jornal O Estado de S. Paulo.
CONTEXTO: A ascensão da IA e do humor como ferramentas eleitorais
A inteligência artificial generativa, como o ChatGPT e os geradores de vídeo como o Sora, da OpenAI, permitiu a criação de conteúdos políticos de baixo custo e alto impacto. Nas últimas semanas, vídeos de candidatos dançando, cantando ou em situações cômicas, gerados por IA, acumularam milhões de visualizações. Um exemplo é o perfil "Política em Pixel", que usa IA para recriar debates entre candidatos em formato de animação. O perfil, que não tem vínculo com nenhum partido, alcançou 5 milhões de seguidores em três meses.
O humor, por sua vez, sempre foi uma ferramenta política, mas agora está mais descentralizado. Humoristas como Paulo Vieira e Gregório Duvivier, que já tinham grande alcance, foram superados por criadores anônimos que usam IA para satirizar a agenda de candidatos. "A IA democratizou o humor. Qualquer pessoa com um computador pode criar um meme político que viraliza. O esporte, que era uma forma de entretenimento de massa, perdeu espaço porque não consegue competir com a velocidade e a personalização da IA", analisa a especialista em marketing digital Marina Santos, em reportagem da Folha de S.Paulo.
ANÁLISE FORTIS: O esporte como vítima do livre mercado de ideias
Para o FORTIS NEWS, essa transformação é uma consequência natural do livre mercado de ideias. Em um ambiente sem censura e com baixa regulação, a criatividade e a tecnologia vencem. As celebridades esportivas, muitas vezes patrocinadas por grandes marcas, perderam a autenticidade. O eleitor percebeu que o atleta que aparece em um comício político está, na maioria das vezes, cumprindo um contrato publicitário, não expressando uma convicção genuína. A IA e o humor, por outro lado, são percebidos como mais honestos — mesmo que muitas vezes sejam igualmente manipuladores.
O Estado mínimo, defendido por esta linha editorial, não deve intervir nesse processo. A regulação de conteúdo político nas redes, como a proposta pelo PL 2630/2020 (Projeto de Lei das Fake News), é vista aqui como uma tentativa de controlar a narrativa. Se a IA e o humor estão ganhando espaço, é porque o público está votando com os olhos e os cliques. O esporte, que já foi um pilar da cultura nacional, precisa se reinventar para continuar relevante no debate público. Caso contrário, será relegado ao segundo plano, como já aconteceu com a música e o cinema em outros ciclos eleitorais.
Além disso, a queda do engajamento esportivo pode ter implicações econômicas. Atletas que dependem de contratos de patrocínio político ou de imagem ligada a partidos podem ver suas receitas diminuírem. Em 2025, o mercado de influenciadores esportivos movimentou R$ 2,3 bilhões no Brasil, segundo a consultoria Nielsen. Para 2026, a projeção é de queda de 15%, com parte desse dinheiro migrando para criadores de conteúdo de IA e humoristas.
Por Renan Filho · 2026-09-28