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A corrida pela renovação de um terço das cadeiras do Senado Federal em outubro de 2026 já se desenha como um dos pleitos mais voláteis da história recente do Brasil. Com o Partido Liberal (PL) consolidando uma robusta máquina eleitoral em pelo menos dez estados, o centro político – representado por legendas como MDB, PSDB e União Brasil – enfrenta uma crescente fragmentação e perde força para candidaturas de direita e de esquerda, enquanto nomes tradicionais e com décadas de mandato amargam riscos reais de derrota. A ausência de pesquisas de intenção de voto definitivas não impede que analistas e fontes internas dos partidos apontem um cenário de forte instabilidade, onde a polarização entre o bolsonarismo e o campo governista domina a agenda e sufoca alternativas moderadas.
**Contexto**
Nas eleições de 2022, o PL elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados, com 99 cadeiras, e conquistou oito vagas no Senado – um desempenho que, combinado com a influência do ex-presidente Jair Bolsonaro sobre eleitores conservadores, criou uma base sólida para 2026. Desde então, dirigentes do partido têm investido na costura de alianças estaduais que incluem desde membros do centrão, como o PP e Republicanos, até dissidências do próprio PSDB e MDB. Em estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, o PL já lançou ou negocia candidaturas de figuras com alta densidade eleitoral, como pastores, oficiais da reserva e prefeitos, ampliando o leque de atrações para além do núcleo bolsonarista tradicional.
Ao mesmo tempo, o centro político enfrenta um processo de encolhimento. O MDB, que historicamente detinha uma das maiores bancadas do Senado, perdeu quadros expressivos em 2022 e tem enfrentado dificuldades para renovar sua liderança. O PSDB, por sua vez, vive sua pior crise: após perder o governo de São Paulo e reduzir sua bancada federal a menos de vinte deputados, o partido vê ex-governadores e ex-ministros, como Aloysio Nunes Ferreira e José Serra, já fora do jogo político ativo, sem conseguir projetar novos nomes com viabilidade para o Senado. O União Brasil, resultado da fusão entre DEM e PSL, ainda não conseguiu forjar identidade nacional e hoje abriga correntes divergentes que vão do bolsonarismo raiz ao centro-esquerda, o que dificulta a construção de candidaturas competitivas em estados decisivos.
Paralelamente, senadores históricos, alguns com mandatos que se arrastam desde os anos 1990, enfrentam desgaste junto ao eleitorado jovem e à opinião pública, que cobra renovação e maior transparência nos gastos públicos. A quantidade elevada de votações contra pautas de interesse popular, como reformas administrativas e medidas de combate à corrupção, gerou um acúmulo de rejeição que pode se refletir nas urnas. Embora os índices de aprovação do Congresso como um todo se mantenham em patamares baixos – segundo pesquisas do Datafolha e do Ipec dos últimos dois anos, abaixo dos 25% –, a avaliação individual de senadores com mandatos longos tende a ser ainda mais negativa, principalmente em estados com forte presença de eleitores informados e politizados.
**Análise**
O crescimento do PL não se dá apenas pelo carisma de Jair Bolsonaro, mas pela capilaridade que o partido conseguiu construir em todas as regiões do país. Diferentemente de 2018 e 2022, quando o bolsonarismo dependia muito da figura do ex-presidente, hoje o PL dispõe de prefeitos, vereadores, deputados estaduais e lideranças comunitárias que funcionam como cabos eleitorais locais. Isso permite que candidatos ao Senado tenham uma base de votos mais distribuída, reduzindo a dependência exclusiva de puxadores de votos nacionais. Em contrapartida, o centro não conseguiu replicar essa estrutura: o MDB ainda mantém fortes diretórios em estados do Norte e Nordeste, mas perdeu o protagonismo nacional; o PSDB, que antes era forte no Sul e Sudeste, agora disputa espaço com o próprio PL e com o PT em São Paulo.
A fragmentação do centro também abre brecha para que a extrema direita e a esquerda radicalizada ganhem cadeiras, aprofundando a polarização. No Senado, isso significa que temas como segurança pública, política de armas e regulação das redes sociais continuarão sendo pautados por discursos extremos, enquanto propostas de coalizão e consenso – como reforma tributária e previdenciária – podem encontrar mais dificuldade para avançar. Por outro lado, o risco de derrota de nomes tradicionais, muitos deles experientes na negociação de emendas e na articulação com o Executivo, pode abrir espaço para uma renovação que, embora desorganizada, traga vozes menos vinculadas a velhas práticas de clientelismo e fisiologismo – desde que essas novas lideranças demonstrem competência e compromisso com a pauta pública.
**Fontes**
Este artigo baseia-se em dados e análises de fontes publicamente disponíveis e verificáveis: - Divulgação de filiações e pré-candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE); - Cobertura jornalística de veículos como Folha de S.Paulo, O Globo, Estadão e UOL sobre as movimentações partidárias para 2026; - Pesquisas de opinião do Datafolha e do Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria) sobre avaliação do Congresso e intenção de voto para o Senado (séries históricas de 2023 a 2025); - Notas oficiais e comunicados de lideranças do PL, MDB, PSDB e União Brasil divulgados em sites partidários e redes sociais; - Análises de cientistas políticos como Jairo Nicolau (FGV), Maria do Socorro Braga (UFSCar) e Leonardo Barreto (Instituto Update) publicadas em colunas e artigos acadêmicos.
Por Renan Filho · 2026-10-03