A eleição presidencial brasileira de 2026 caminha para consolidar o menor número de debates televisionados desde a redemocratização, repetindo um comportamento que não ocorria havia quase três décadas. Dados preliminares de emissoras e portais de verificação indicam que, até o momento, foram realizados apenas dois encontros entre os principais postulantes ao Palácio do Planalto, número que deve se manter até o fim do primeiro turno.
O recuo na exposição ao vivo ocorre em um cenário de fragmentação da propaganda eleitoral, ascensão das redes sociais e endurecimento do marketing político. Em 1998, ano em que Fernando Henrique Cardoso buscou a reeleição, o país assistiu a dois debates presidenciais transmitidos em rede nacional. Agora, quase três décadas depois, a dinâmica se repete, mas por motivos distintos: a estratégia dos candidatos passou a priorizar a comunicação direta com o eleitor por meio de plataformas digitais, evitando o confronto mediado por jornalistas tradicionais.
A redução dos debates não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas ganha contornos específicos no Brasil. Enquanto nos Estados Unidos os debates presidenciais seguem como rituais obrigatórios e de grande audiência, no Brasil a legislação eleitoral permite que as emissoras promovam encontros apenas se houver concordância dos candidatos com representação no parlamento. Na prática, isso significa que o candidato que lidera as pesquisas tende a recusar o confronto direto, sob o argumento de que o eleitor já conhece suas propostas.
Por que isso importa? Porque o debate público é um dos pilares do processo democrático. É nele que o eleitor consegue comparar, lado a lado, propostas, posturas e capacidade de articulação dos candidatos. A ausência de debates aprofunda a sensação de distanciamento entre a classe política e a população, que já demonstra baixos índices de confiança nas instituições. Além disso, o vazio deixado pelos encontros televisionados é preenchido por versões fragmentadas, muitas vezes distorcidas, que circulam em grupos de mensagens e redes sociais.
A análise do FORTIS NEWS parte de um princípio liberal-conservador: o Estado não deve obrigar a realização de debates, mas a sociedade civil organizada, as associações de imprensa e os próprios eleitores deveriam cobrar com mais vigor a exposição dos candidatos. O mercado de ideias, assim como o mercado econômico, precisa de transparência para funcionar. Sem confronto de ideias, o eleitor fica refém de santinhos, programas eleitorais e, sobretudo, de algoritmos que potencializam o ódio e a desinformação.
Não se trata, contudo, de defender uma pauta da esquerda ou da direita. Trata-se de constatar que a estratégia de evitar debates é um erro de cálculo político. O candidato que se furta ao debate demonstra desrespeito ao eleitor, que fica sem a oportunidade de testar a solidez de seus argumentos. A história recente mostra que o eleitor brasileiro pune candidatos que se escondem, como ocorreu em eleições passadas, quando o sumiço da imprensa se tornou um fator de desgaste.
É preciso reconhecer, no entanto, o contraponto: a cobertura jornalística tradicional, em muitos casos, não oferece mais o mesmo valor informativo de outrora. As perguntas repetitivas, o tratamento superficial dos temas e a ausência de aprofundamento empurram os candidatos para fora do palco. A imprensa, que deveria ser a indutora do debate qualificado, perdeu o monopólio da mediação e hoje disputa com influenciadores e canais independentes a atenção do eleitor.
Diante desse cenário, a pergunta que fica é: o que será das próximas eleições? Se a tendência de redução dos debates se mantiver, o Brasil pode estar diante de uma mudança estrutural no processo eleitoral, na qual o palco tradicional perde espaço para as redes sociais, com todos os riscos que isso representa para a qualidade da democracia. A liberdade de expressão deve ser preservada, mas a liberdade de evitar o contraditório não pode ser confundida com estratégia legítima de campanha.
O FORTIS NEWS seguirá acompanhando a reta final da campanha e cobrando que os candidatos apresentem propostas claras, independentemente do formato de divulgação. O eleitor merece saber o que cada um pensa sobre reforma tributária, redução do Estado, segurança pública e soberania nacional. O resto é pano de fundo.
Por Renan Filho · 2026-09-24