**Lead**
O ex-secretário da Receita Federal, Dario Durigan, afirmou que o mercado financeiro comete um erro ao incorporar nas suas projeções a hipótese de que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seria o nome viável para substituir o pai, Jair Bolsonaro, em uma eventual corrida presidencial em 2026. A declaração foi feita em um evento fechado com investidores na última semana, segundo participantes que ouviram a exposição. Durigan, que foi número dois do Ministério da Economia durante o governo Bolsonaro, classificou a aposta como “descolada da realidade política brasileira”.
**Contexto**
A fala de Durigan ocorre em um momento em que o mercado financeiro tenta precificar cenários para as eleições de 2026, especialmente diante da inelegibilidade de Jair Bolsonaro, condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. A ausência de um nome consolidado no campo conservador abriu espaço para especulações sobre o senador Flávio Bolsonaro, que herdaria parte do capital político do pai, mas enfrenta desgastes próprios, como as investigações do caso “rachadinha” no Rio de Janeiro.
Dario Durigan foi uma figura central na formulação da política econômica do governo Bolsonaro, tendo atuado diretamente com o então ministro Paulo Guedes. Sua visão é considerada relevante por parte do mercado justamente por sua experiência na transição entre o discurso liberal e a prática orçamentária do governo. Portanto, sua crítica à percepção dominante no mercado carrega peso simbólico.
O mercado financeiro, por sua vez, tem demonstrado crescente ansiedade com o atual governo Lula. As preocupações fiscais, com o aumento da dívida pública e a falta de âncoras críveis, levam investidores a buscar cenários alternativos. A figura de Flávio Bolsonaro, embora ainda sem viabilidade jurídica plena, aparece em algumas simulações como uma tentativa de resgatar a agenda liberal de Paulo Guedes, associada ao nome do clã Bolsonaro. Durigan, no entanto, considera essa associação precipitada.
**Análise**
A declaração de Durigan expõe uma fratura entre a percepção de analistas distantes do dia a dia político e a avaliação de quem viveu a máquina pública de perto. O ex-secretário lembra que a imagem de “liberal” do governo Bolsonaro foi mais retórica do que prática, com aumento de gastos e interferências setoriais. Apostar em Flávio Bolsonaro como um garantidor de disciplina fiscal seria, nessa visão, ignorar as circunstâncias que levaram o país ao atual descontrole.
Além disso, Flávio Bolsonaro carrega um passivo jurídico e de imagem que torna inviável uma candidatura competitiva sem um trabalho de reabilitação que levaria anos — algo incompatível com o ciclo eleitoral de 2026. A aposta do mercado, portanto, estaria mais baseada em desejo do que em evidências concretas. Durigan sugere que, se o mercado deseja realmente um candidato liberal, deveria olhar para nomes com trajetória comprovada de defesa do ajuste fiscal, e não para herdeiros políticos desgastados.
O impacto dessa declaração nos mercados deve ser limitado no curto prazo, mas ela serve como um alerta para investidores que montam posições baseadas em cenários irreais. A economia brasileira não será salva por um nome, mas por um conjunto de políticas sustentáveis — e, até o momento, nenhum dos pré-candidatos apresentou um programa crível de equilíbrio das contas públicas. A fala de Durigan reforça que a política não se resume a manchetes de jornal e que a realidade institucional impõe limites que o mercado frequentemente subestima.
**Fontes**
Declarações de Dario Durigan em evento com investidores, cujo conteúdo foi relatado por participantes sob condição de anonimato. Informações de background sobre Flávio Bolsonaro baseadas em reportagens públicas do jornal Folha de S. Paulo e do portal UOL. Cenário político-eleitoral com base em análises do Tribunal Superior Eleitoral e pesquisas de intenção de voto divulgadas pelos principais institutos do país.
Por Renan Filho · 2026-10-16