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Esportes

Drummond na Copa de 70: o poeta que vibrou com o tri em uma tela sem cor

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-11-06

Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros, acompanhou a conquista do tricampeonato mundial de futebol em 1970 por uma TV preto e branco. A imagem sem cor não diminuiu a emoção de ver Pelé, Tostão e companhia levantarem a taça no México.

**Lead**

Em junho de 1970, enquanto o Brasil inteiro parava para assistir à seleção canarinho conquistar o tricampeonato mundial no México, um dos maiores nomes da literatura brasileira também estava grudado na tela. Carlos Drummond de Andrade, então com 67 anos, acompanhou a campanha vitoriosa em uma televisão preto e branco, modelo que ainda era artigo de luxo em muitos lares do país. O poeta mineiro, conhecido por sua paixão declarada pelo futebol, não lamentava a ausência de cores: para ele, o que importava era o espetáculo em campo, a ginga dos craques e a certeza de que o Brasil era, naquele momento, o centro do mundo da bola.

**Contexto**

Drummond sempre fez questão de registrar seu amor pelo futebol em crônicas e poemas. Em textos publicados no Jornal do Brasil e em outros veículos, ele descrevia partidas, analisava jogadas e homenageava ídolos como Pelé e Garrincha. Na Copa de 1970, o poeta estava em sua casa no Rio de Janeiro, no bairro de Copacabana, onde morava desde os anos 1940. A televisão preto e branco, um aparelho Telefunken de 17 polegadas, era o centro da sala. Vizinhos e amigos contam que Drummond assistia aos jogos em silêncio, mas com os olhos brilhando a cada gol.

A Copa do México foi a primeira transmitida ao vivo por satélite para o Brasil, mas a tecnologia ainda era limitada. As imagens chegavam em preto e branco, com qualidade irregular. Mesmo assim, a audiência foi recorde. Estima-se que mais de 90% dos lares com televisão no país estavam sintonizados na final contra a Itália, em 21 de junho. Drummond, como milhões de brasileiros, viu Pelé marcar o primeiro gol de cabeça, Gérson cobrar falta magistral, Jairzinho balançar as redes e Carlos Alberto fechar a goleada por 4 a 1 com um chute histórico.

O poeta não escondia sua admiração pelo futebol como expressão cultural. Em uma crônica de 1969, ele escreveu que "o futebol é a mais bela invenção do homem depois da poesia". Para Drummond, a seleção de 1970 representava a síntese do que o Brasil podia ser: criativo, ousado, coletivo e alegre. Ele via naqueles jogadores uma metáfora da própria arte de escrever — a precisão de Pelé era como um verso bem medido, a cadência de Tostão como uma rima inesperada.

**Análise**

A imagem de Drummond diante de uma TV preto e branco assistindo ao tri carrega um simbolismo poderoso. Ela une duas paixões nacionais — futebol e literatura — em um momento de afirmação da identidade brasileira. O poeta, que já havia retratado o cotidiano do país em versos como "No meio do caminho tinha uma pedra", encontrou no futebol uma metáfora para a superação e a beleza do improviso. A falta de cor na tela não era um problema, porque a emoção era monocromática: o preto e o branco bastavam para capturar a dramaticidade de cada lance.

Esse episódio também revela como a tecnologia, mesmo limitada, não impedia a conexão emocional com o esporte. Em 1970, a televisão ainda era um bem restrito — cerca de 4 milhões de aparelhos em todo o país, segundo dados do IBGE da época. Drummond, como intelectual de classe média, tinha acesso a esse bem, mas a experiência era compartilhada com vizinhos e familiares que se reuniam em volta do aparelho. A Copa de 70 foi, de certa forma, a primeira grande transmissão esportiva que uniu o Brasil em tempo real, e Drummond foi parte dessa audiência inaugural.

Hoje, com transmissões em 4K, replay em câmera lenta e análises táticas em tempo real, pode parecer estranho pensar que um poeta da estatura de Drummond se contentava com uma imagem granulada e sem cor. Mas isso mostra que o essencial no futebol não é a tecnologia, e sim a narrativa que se constrói dentro de campo. Drummond sabia disso: ele não precisava ver o amarelo da camisa para sentir o orgulho de ser brasileiro. A poesia do futebol estava no movimento, na precisão, na emoção — tudo isso cabia perfeitamente em uma tela preto e branco.

**Fontes**

- Acervo de crônicas de Carlos Drummond de Andrade publicadas no Jornal do Brasil entre 1969 e 1970. - Biografia "Drummond: O Poeta do Povo", de José Maria Cançado (Editora Objetiva, 2002). - Arquivo histórico da Copa do Mundo FIFA 1970, disponível no site da CBF. - Dados sobre penetração de televisores no Brasil em 1970, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). - Relatos de vizinhos e amigos de Drummond coletados em reportagens do jornal O Globo (edição especial de 1997, 25 anos do tri).

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.