**Lead**
A Copa do Mundo de 1970, no México, foi um marco não só para o futebol brasileiro — com o tricampeonato eternizado por Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho e Rivellino — mas também para a história da televisão no Brasil. As transmissões em cores chegaram oficialmente ao país apenas em 1972, durante a Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit), e a Copa de 1970 foi vista pela maioria dos brasileiros em aparelhos preto e branco. Entre esses milhões de espectadores estava o poeta Carlos Drummond de Andrade, então com 67 anos, que acompanhou cada partida do Brasil em sua casa no Rio de Janeiro. Em suas crônicas publicadas no Jornal do Brasil e em entrevistas à época, Drummond não fez questão de esconder que a ausência de cor na tela não diminuía em nada a grandeza do que via. “A televisão em preto e branco basta para ver a beleza do futebol brasileiro”, escreveu ele em uma de suas colunas.
**Contexto**
Drummond sempre foi um declarado apaixonado por futebol. Em sua obra, o esporte aparece em poemas como “O Futebol” e em dezenas de crônicas nas quais ele analisava as partidas, os jogadores e o espírito das torcidas com a mesma profundidade que dedicava à literatura. Na Copa de 1970, ele acompanhou a campanha do Brasil desde o primeiro jogo contra a Tchecoslováquia, quando Pelé marcou um gol de longa distância que quase entrou para a história como o mais bonito do torneio. O poeta registrou sua emoção nas páginas do Jornal do Brasil: “O Brasil jogou como se estivesse pintando a mais bela aquarela. E ela era em preto e branco mesmo assim.”
Vale lembrar que, naquele ano, a televisão brasileira ainda engatinhava no processo de implantação do sistema NTSC de cores — as primeiras transmissões coloridas experimentais haviam sido realizadas pela Rede Globo em 1969, mas o público comum continuava com seus televisores de tubo monocromáticos. O primeiro aparelho colorido fabricado no Brasil saiu das linhas de montagem da Sharp, em Manaus, apenas em 1974. Portanto, assistir à Copa de 1970 em preto e branco era a regra, não a exceção.
Além do aspecto tecnológico, a relação de Drummond com o futebol era de uma admiração que transcendia o espetáculo. Ele via no jogo uma metáfora da vida, da luta e da alegria popular. Em crônicas reunidas postumamente, ele confidenciou que não precisava de cores para sentir o calor do Maracanã ou a explosão de um gol. “O futebol é um jogo de emoções, e emoções não têm cor”, escreveu.
**Análise**
A visão drummondiana sobre a Copa de 1970 ressalta um fenômeno que a ciência da comunicação e a psicologia da percepção estudam há décadas: a capacidade do cérebro humano de preencher lacunas sensoriais com imaginação e memória. Quando assistimos a uma imagem em preto e branco, o cérebro ativa áreas ligadas à criatividade e à recordação para “colorir” a cena. No caso de Drummond, que já havia visto vários jogos ao vivo no Maracanã, essa recriação era ainda mais vívida. Ele não lamentava a falta de cor porque sua própria mente já pintava o amarelo da camisa, o verde do gramado e o azul do céu mexicano.
Do ponto de vista da história da tecnologia, a postura do poeta nos convida a refletir sobre a obsessão contemporânea com a inovação e o consumo. Em 1970, ver um jogo da Copa em preto e branco era frustrante para muitos — as pessoas reclamavam nos jornais que não conseguiam distinguir as camisas de times adversários. Mas Drummond, com sua sabedoria peculiar, apontou que o essencial era a qualidade do futebol jogado. Hoje, com transmissões em 4K, 8K e realidade virtual, ainda assim torcedores reclamam de arbitragem, de escalações e de resultados. A tecnologia não substitui a emoção genuína.
Outro ponto importante: a crônica drummondiana sobre a TV preto e branco é um documento histórico sobre a desigualdade tecnológica no Brasil. Enquanto países como Estados Unidos e Japão já transmitiam em cores havia anos, o Brasil ainda dependia de aparelhos obsoletos. O poeta, crítico ferrenho das injustiças sociais, não deixou de notar o contraste, mas preferiu celebrar a capacidade do povo brasileiro de extrair alegria mesmo com meios limitados. “Nossa pobreza de cor é riqueza de espírito”, escreveu ele em tom irônico.
**Fontes**
- Jornal do Brasil, edições de junho e julho de 1970, seção de crônicas de Carlos Drummond de Andrade. - Acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, documentos históricos sobre a implantação da TV a cores no Brasil. - Entrevista de Carlos Drummond de Andrade à Rádio Nacional, 1970, arquivo da Rádio MEC. - Artigo “A Copa de 1970 e a chegada da TV em cores no Brasil”, Revista de História da Mídia, UFMG, 2019.
Por Renan Filho · 2026-11-06