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Em artigo publicado nesta quinta-feira, a jornalista e colunista Dora Kramer, do jornal O Estado de S. Paulo, analisou a recente declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre a necessidade de “redemocratizar o Brasil”. Segundo a colunista, a proposta gera “suspeita imediata” por vir de um político cujo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, liderou um governo marcado por reiterados ataques às instituições democráticas e à credibilidade do processo eleitoral. Dora Kramer argumenta que a fala do parlamentar fluminense, em vez de sinalizar um verdadeiro compromisso com o aperfeiçoamento democrático, parece uma tentativa de deslocar o debate público para um terreno onde a oposição ao atual governo seja enquadrada como “antidemocrática”, invertendo os polos da discussão.
**Contexto**
A declaração de Flávio Bolsonaro ocorreu durante evento político em Brasília na última terça-feira, quando o senador afirmou que o Brasil “precisa de uma nova redemocratização” e que as “forças patrióticas” devem se unir para “restaurar a liberdade de expressão e o direito à propriedade”. A fala foi interpretada por analistas como uma tentativa de reposicionamento político diante do desgaste da imagem da família Bolsonaro após a derrota nas eleições de 2022 e os desdobramentos dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, que culminaram na condenação de diversos apoiadores do ex-presidente.
Dora Kramer, em seu texto, ressalta que o termo “redemocratização” carrega um peso histórico específico no Brasil. Ele é usado para descrever o processo de transição do regime militar (1964-1985) para a democracia representativa, que culminou na promulgação da Constituição de 1988. A jornalista lembra que Flávio Bolsonaro, assim como seu pai, sempre fez apologia pública ao período ditatorial e ao ex-presidente militar João Figueiredo. “É no mínimo contraditório que alguém que jamais se desculpou ou se distanciou do regime de exceção agora se apresente como arauto da redemocratização”, escreveu.
A colunista também contextualiza o cenário político atual, marcado por uma polarização intensa e por investigações da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre milícias digitais, atos antidemocráticos e a tentativa de golpe de Estado. Nesse ambiente, a proposta de Flávio é vista por setores da oposição como uma manobra para desviar o foco das acusações que pesam contra o clã Bolsonaro e para tentar se apresentar como “voz moderada” dentro do campo conservador.
**Análise**
Dora Kramer sustenta que a iniciativa do senador revela menos um desejo genuíno de fortalecer instituições e mais uma estratégia de comunicação para redefinir os termos do debate político. Ao se colocar como “defensor da democracia”, Flávio tenta esvaziar a crítica de que seu grupo político representa uma ameaça ao regime democrático. A jornalista aponta que, para que uma proposta de redemocratização seja levada a sério, seria necessário um ato concreto de ruptura com o passado autoritário, como um pedido público de desculpas pelo 8 de janeiro ou o reconhecimento da legalidade do resultado eleitoral de 2022 — atitudes que, segundo ela, o senador jamais tomou.
A análise prossegue com a ponderação de que o discurso de Flávio também tenta capitalizar sobre a insatisfação popular com a economia e com a segurança pública, sentimentos que, em uma democracia saudável, seriam direcionados por meio de oposição legítima e eleições. No entanto, a suspeita levantada por Dora Kramer é a de que a palavra “redemocratização” está sendo usada como uma espécie de “cavalo de Troia” para legitimar projetos de poder que, na prática, enfraquecem as garantias constitucionais. “Quando alguém que nunca demonstrou apreço pela democracia começa a usar seu nome com frequência, é hora de perguntar: a qual democracia ele se refere?”, questiona a colunista.
Para Dora Kramer, o maior perigo dessa retórica é o de banalizar o conceito de redemocratização, tornando-o um termo vazio de significado e sujeito a apropriações por lideranças que, na prática, desejam concentrar poder e diminuir o espaço de divergência. Ela conclui que, em vez de se preocupar com um novo processo constituinte ou com a refundação do Estado, Flávio Bolsonaro deveria primeiro demonstrar respeito pelas regras democráticas já existentes.
**Fontes**
- Artigo de opinião de Dora Kramer, publicado no jornal O Estado de S. Paulo (Estadão), edição de 8 de outubro de 2026. - Declarações públicas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em evento político em Brasília, em 6 de outubro de 2026, repercutidas por veículos como UOL, G1 e Folha de S.Paulo.
Por Renan Filho · 2026-10-08