O artigo do sociólogo Demétrio Magnoli, que circula nos principais veículos do país, coloca na mesa uma pergunta incômoda para o establishment político: afinal, que Brasil queremos apresentar ao mundo? A pergunta não é nova, mas ganha contornos dramáticos diante de um cenário internacional cada vez mais polarizado, com guerras comerciais, conflitos regionais e uma OMC fragilizada.
Magnoli, como é de seu estilo, não se contenta com o senso comum. Ele aponta que os dois candidatos com reais condições de vencer a próxima eleição presidencial representam visões opostas de soberania e de inserção global. De um lado, um projeto que enxerga o Estado como protagonista do desenvolvimento e vê nos acordos Sul-Sul uma prioridade estratégica. De outro, uma proposta que defende a abertura comercial, a redução da máquina pública e a aproximação com as democracias liberais.
Para o leitor do FORTIS, esse contraste não é meramente acadêmico. A política externa brasileira, durante décadas, foi tratada como uma espécie de 'política de Estado' imune ao debate público. O resultado está aí: o Brasil se isolou dos principais acordos de livre-comércio, perdeu espaço nas cadeias globais de valor e ainda sustenta um Itamaraty caro e ideológico, que muitas vezes gasta mais com a manutenção de embaixadas do que com o resultado prático para o agronegócio e a indústria.
Por que isso importa agora? Porque o mundo mudou. A guerra na Ucrânia reconfigurou a geopolítica energética e alimentar. A disputa entre Estados Unidos e China obriga países como o Brasil a escolherem lado, ou pelo menos a definirem prioridades claras. Nesse contexto, um candidato que insiste em culpar os 'imperialismos' pelos problemas nacionais demonstra não ter entendido que o Brasil não é mais uma peça relevante no tabuleiro global sem uma economia competitiva.
A análise FORTIS é direta: a soberania que interessa não é a dos discursos, mas a que garante ao cidadão brasileiro o direito de empreender, de exportar e de ter acesso a bens e serviços de qualidade. Um país que tributa mais de 40% do PIB e entrega serviços públicos piores que os de vizinhos mais pobres não tem autoridade moral para dar lições de governança global. A política externa deveria ser um instrumento de desenvolvimento, não um palco para vaidades ideológicas.
É claro que há quem discorde. Os defensores do projeto estatista argumentam que a integração com países emergentes abriu mercados importantes para a indústria nacional, como a China. De fato, as exportações brasileiras para o país asiático cresceram exponencialmente nas últimas duas décadas, mas boa parte desse comércio é baseada em commodities com baixo valor agregado. Ou seja: o Brasil vende cada vez mais, mas entrega cada vez menos tecnologia e conhecimento. Isso não é integração inteligente, é subordinação.
Outro contraponto frequente é o de que a aproximação com regimes autoritários seria uma forma de 'autonomia'. Ora, autonomia é o que falta ao Brasil quando depende de adubos importados, de insumos farmacêuticos e de tecnologia estrangeira para manter até mesmo a sua defesa. Um país que não resolve as suas reformas estruturais não tem como ser um ator relevante no cenário internacional, por mais que seus diplomatas discursem em fóruns multilaterais.
O artigo de Magnoli, ao expor as duas visões, presta um serviço ao debate público. Mas o FORTIS vai além: não basta diagnosticar. É preciso que o eleitor cobre dos candidatos um plano claro de política externa, com metas mensuráveis, redução de tarifas, acordos de comércio efetivos e uma posição firme contra o protecionismo dos outros países. O Brasil não pode continuar sendo o 'país do futuro' que perde todas as rodadas de negociação porque insiste em defender um passado que já não existe.
A pergunta que fica é: qual dos dois candidatos terá a coragem de dizer ao brasileiro que o mundo não está esperando a nossa 'boa vontade'? Que o Mercosul, como está, é uma camisa de força que impede acordos com a União Europeia e com os Estados Unidos? Que a reforma tributária que reduziria o custo das exportações está engavetada há décadas? O próximo presidente precisa ser um embaixador do contribuinte brasileiro, não um líder de um bloco ideológico em extinção.
No fim, o que está em jogo é simples: ou o Brasil se integra ao mundo de forma competitiva e responsável, ou continuará refém de um estado inchado e ineficiente que promete muito e entrega pouco. A escolha não é entre esquerda e direita, mas entre o atraso e o desenvolvimento. E o relógio está correndo.
Por Renan Filho · 2026-09-25