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O Brasil chega às vésperas da próxima transição presidencial com um cenário fiscal preocupante: o crescimento acelerado da dívida pública, alimentado por um gasto recorde em despesas obrigatórias, ameaça travar a capacidade de ação do futuro governo. O aumento das despesas com previdência, assistência social e juros da própria dívida tem consumido parcela crescente do Orçamento, reduzindo a margem para investimentos e para a implementação de novas políticas públicas. A situação, agravada pelo baixo crescimento econômico e pela rigidez do arcabouço fiscal, coloca o próximo chefe do Executivo diante de um dilema: ou enfrenta um ajuste impopular ou vê a dívida continuar a crescer em ritmo insustentável.
**Contexto**
O debate sobre a dívida pública não é novo, mas ganhou urgência nos últimos anos. O Brasil já passou por ciclos de expansão fiscal e de ajustes, mas o quadro atual se distingue pela combinação de recessão, inflação persistente e aumento das obrigações legais com a população. O envelhecimento da população eleva os gastos com aposentadorias e pensões, enquanto a vinculação de receitas a áreas como saúde e educação engessa o Orçamento. Além disso, as mudanças climáticas e os eventos extremos exigem investimentos crescentes em prevenção e resposta a desastres, pressionando ainda mais as contas públicas.
A equipe econômica do atual governo tem adotado medidas para conter o avanço das despesas, mas as resistências políticas e a complexidade do sistema tributário dificultam avanços mais estruturais. A reforma administrativa, que poderia reduzir o custo da máquina pública, segue parada no Congresso. A reforma tributária, embora aprovada em parte, ainda precisa de regulamentação e terá efeitos graduais sobre o crescimento e a arrecadação. Enquanto isso, o Tesouro Nacional tem recorrido ao mercado para financiar os déficits, elevando o estoque da dívida mobiliária e aumentando o peso dos juros no orçamento.
O cenário internacional também não ajuda: a alta das taxas de juros globais, especialmente nos Estados Unidos, encarece o serviço da dívida brasileira, tanto a interna quanto a externa. A fuga de capitais dos mercados emergentes em momentos de incerteza agrava a desvalorização cambial, aumentando ainda mais o custo da dívida atrelada ao dólar. A instabilidade política, com crises frequentes entre os Poderes, contribui para a aversão ao risco e dificulta a aprovação de medidas de ajuste.
**Análise**
O impacto dessa trajetória é direto sobre a vida dos brasileiros. Com menos espaço fiscal, o próximo governo terá dificuldades para ampliar programas sociais, melhorar a infraestrutura, combater a criminalidade ou investir em educação e saúde. Os projetos de longo prazo, como a transição energética e a digitalização da economia, ficarão dependentes de parcerias com o setor privado ou do financiamento internacional, mas a confiança do investidor está condicionada à sustentabilidade da dívida. Sem um plano crível de estabilização, o risco-país permanece elevado, mantendo os juros altos e limitando o crédito.
A saída dependerá de uma combinação de medidas: controle rigoroso das despesas obrigatórias, com revisão de benefícios e subsídios; melhora da eficiência do gasto público, com avaliação de programas; e aumento da arrecadação via combate à sonegação e revisão de incentivos fiscais. Do lado da receita, é preciso simplificar impostos para estimular o crescimento formal e ampliar a base contributiva. Do lado político, será essencial construir um pacto entre governo, Congresso e sociedade para viabilizar as reformas que hoje parecem intocáveis.
O futuro governo, qualquer que seja o vencedor, herdará um país com margem fiscal mínima. A promessa de campanha que muitas vezes ignora a realidade das finanças públicas terá que ceder espaço a uma gestão realista, focada em prioridades. O desafio é enorme, mas o Brasil ainda tem tempo de reverter o quadro antes que a dívida se torne incontrolável. Se os próximos quatro anos forem marcados por paralisia e conflito, o custo social será muito maior do que o de um eventual ajuste agora.
**Fontes**
As informações baseiam-se em relatórios do Tesouro Nacional sobre a dívida pública, do Banco Central sobre a política monetária, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre o cenário fiscal e de projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgadas em documentos públicos. Os dados quantitativos citados, quando não especificados, referem-se a tendências observadas nas últimas séries históricas dessas instituições.
Por Renan Filho · 2026-09-30