FORTIS
← FORTIS
Politica

Para além da inconveniência: as distorções informacionais que corrompem o processo eleitoral brasileiro

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-25

Dados oficiais do TSE, estudos de institutos de pesquisa e relatórios de transparência revelam um ecossistema de desinformação que ultrapassa o debate ideológico e ameaça a credibilidade das urnas. O FORTIS NEWS analisa os números que a narrativa dominante prefere ignorar.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou, em nota técnica divulgada em 20 de setembro de 2026, que mais de 2,1 milhões de títulos eleitorais foram cancelados ou suspensos nos últimos 12 meses por irregularidades cadastrais — um recorde histórico. O órgão atribui o aumento à revisão biométrica e ao cruzamento de bases de dados com a Receita Federal e o INSS. Mas o dado levanta uma questão que vai além da burocracia: quantos desses cancelamentos são fruto de erros voluntários ou de má-fé informacional?

O problema central, contudo, não está apenas nos cadastros. Em publicação nas redes sociais no dia 22 de setembro, o cientista político Bruno Carazza, professor da Universidade de Brasília (UnB), afirmou que “a assimetria informacional nas eleições brasileiras atingiu níveis críticos, com a circulação de conteúdos falsos superando a de materiais oficiais em uma proporção de 3 para 1 durante o período de campanha”. Carazza baseou-se em um levantamento preliminar do NetLab da UFRJ, que monitorou 1.200 grupos públicos de WhatsApp entre agosto e setembro. A pesquisa ainda não foi publicada em periódico revisado por pares, mas os números preliminares são preocupantes.

O TSE, por meio de sua assessoria de imprensa, declarou ao jornal O Estado de S. Paulo que “a Corte está ciente do fenômeno e tem investido R$ 48 milhões em campanhas de educação midiática e em parcerias com plataformas digitais”. O valor, equivalente a 0,03% do orçamento total da União para 2026, levanta dúvidas sobre a real prioridade dada ao tema. Enquanto isso, o orçamento do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para este ano é de R$ 5,7 bilhões — um aumento real de 12% em relação a 2024, segundo dados da Câmara dos Deputados.

Por que isso importa? Porque a distorção informacional não é um mero incômodo para o eleitor. Ela distorce a alocação de votos, favorece candidatos com maior capacidade de amplificação digital — muitas vezes sem relação direta com a qualidade das propostas — e penaliza quem depende de canais tradicionais de comunicação. Em um país onde 34% da população ainda não tem acesso à internet banda larga, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2025, a guerra de narrativas online exclui milhões de brasileiros do debate real.

Análise FORTIS: O diagnóstico é grave, mas a solução proposta pelo establishment político é pior. A resposta automática de setores do Congresso e do Judiciário tem sido pedir mais regulação, mais controle e mais censura prévia. Em discurso no plenário da Câmara em 18 de setembro, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) defendeu a criação de uma “agência nacional de combate à desinformação”, com poder de remover conteúdos sem autorização judicial. A proposta, que tramita em regime de urgência, ignora o fato de que o próprio Estado brasileiro é um dos maiores propagadores de informações imprecisas. Basta lembrar os erros recorrentes nas bases de dados do CadÚnico, que em 2025 registraram 1,7 milhão de benefícios pagos a pessoas falecidas, conforme auditoria do TCU divulgada em março.

Se o Estado não consegue gerir com precisão nem mesmo seus próprios cadastros de assistência social, que garantia o cidadão tem de que uma agência reguladora da informação não será capturada por interesses políticos? A liberdade de expressão, pilar de qualquer sociedade livre, não pode ser sacrificada no altar da eficiência eleitoral. O livre mercado de ideias — com todos os seus ruídos — ainda é o melhor antídoto contra a mentira organizada, desde que haja transparência sobre as fontes e responsabilização posterior por danos comprovados.

Contraponto: Defensores da regulação argumentam que o livre mercado de ideias falha quando há assimetria de poder econômico. Em entrevista à Rádio CBN no dia 21 de setembro, a professora de direito constitucional Vera Karam, da UFPR, afirmou que “permitir que bilionários e grandes corporações comprem impunemente anúncios políticos direcionados sem qualquer verificação factual é transformar a democracia em um leilão”. O argumento tem mérito. Dados do relatório “Digital Ad Spending in Brazil 2026”, da consultoria eMarketer, indicam que as campanhas presidenciais devem gastar este ano R$ 1,2 bilhão apenas em anúncios no Google e no Meta (Facebook e Instagram). A concentração de recursos em poucos atores digitais pode, de fato, distorcer o debate. A solução, porém, não é o Estado decidir o que é verdade, mas sim garantir que todos os candidatos tenham acesso equitativo a ferramentas de verificação e que as plataformas sejam obrigadas a divulgar, em tempo real, quem pagou por cada anúncio e qual o público-alvo.

O FORTIS NEWS acredita que a resposta está na transparência radical, não na censura. O eleitor brasileiro é mais inteligente do que a elite política supõe. Quando exposto a informações contraditórias com fontes claras, ele é perfeitamente capaz de formar seu próprio juízo. O que corrompe o processo não é a existência de versões conflitantes, mas a opacidade sobre quem financia e distribui cada versão.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.