**Lead**
O primeiro turno das eleições presidenciais no Rio de Janeiro, em 3 de outubro de 2026, transformou o estado em um laboratório de estratégias digitais voltadas ao eleitorado bolsonarista. Candidatos de diferentes espectros políticos intensificaram o uso de plataformas de mensageria, anúncios segmentados e ferramentas de microdirecionamento para conquistar o apoio de um grupo que, desde 2018, se consolidou como força eleitoral decisiva. A tecnologia, antes coadjuvante, tornou-se o principal canal de comunicação e mobilização nessa disputa.
**Contexto**
O bolsonarismo, movimento político que orbita em torno da figura do ex-presidente Jair Bolsonaro, mantém uma base fiel no Rio de Janeiro, estado onde o ex-presidente obteve votação expressiva em pleitos anteriores. Com a inelegibilidade de Bolsonaro para 2026, seus apoiadores se fragmentaram entre candidatos que reivindicam o legado conservador e de direita. A ausência de um nome único obrigou as campanhas a disputar esse eleitorado com estratégias cada vez mais sofisticadas.
O uso de aplicativos como WhatsApp e Telegram tornou-se central. Grupos de apoiadores, muitos deles administrados por lideranças locais, funcionam como canais de distribuição de conteúdo político. Ferramentas de disparo em massa, muitas vezes operadas por agências de marketing digital, permitem que mensagens atinjam milhares de eleitores em segundos. A segmentação algorítmica, oferecida por plataformas como Meta e Google, possibilita que anúncios sejam exibidos apenas para usuários com perfil ideológico alinhado ao bolsonarismo, com base em histórico de navegação, curtidas e interações.
Paralelamente, cresce a preocupação com a disseminação de desinformação. Organizações de monitoramento, como o NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o ITS Rio, têm registrado um aumento no volume de conteúdos falsos compartilhados em redes fechadas. Vídeos manipulados, áudios adulterados e textos enganosos circulam com velocidade, muitas vezes sem a possibilidade de verificação em tempo real pelas plataformas. A tecnologia, nesse cenário, atua tanto como ferramenta de engajamento quanto como vetor de ruído informacional.
**Análise**
A centralidade da tecnologia na disputa pelos votos bolsonaristas no Rio de Janeiro reflete uma transformação mais ampla do fazer político no Brasil. As campanhas tradicionais, baseadas em comícios e corpo a corpo, perdem espaço para estratégias digitais que permitem alcance massivo com baixo custo operacional. Para candidatos que disputam o eleitorado de Bolsonaro, dominar as ferramentas de segmentação e mensageria não é mais opcional — é condição de competitividade.
O impacto dessa digitalização, no entanto, levanta questões sobre a integridade do processo eleitoral. A opacidade dos algoritmos e a dificuldade de rastrear o financiamento de anúncios políticos tornam o ambiente digital propício a abusos. A ausência de regulação específica para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral, por exemplo, permite a criação de deepfakes e a personalização extrema de discursos, que podem enganar eleitores menos informados. O Tribunal Superior Eleitoral, ciente do desafio, tem ampliado parcerias com plataformas e empresas de fact-checking, mas a velocidade da inovação tecnológica supera a capacidade de resposta institucional.
**Fontes**
Relatórios de monitoramento do NetLab (UFRJ) e do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio); análises de campanhas eleitorais digitais publicadas por veículos de imprensa nacional; dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral sobre prestação de contas de candidatos; estudos acadêmicos sobre comportamento eleitoral e redes sociais no Brasil.
Por Renan Filho · 2026-10-03