**Lead**
A poucas semanas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, a disputa pelo voto no Nordeste se transformou em um campo de batalha digital e físico. De um lado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aposta em uma rede de aplicativos de mobilização popular e no apoio de prefeitos e governadores da região. Do outro, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) intensifica o uso de inteligência artificial para segmentar mensagens e conta com a atuação de vereadores e influenciadores digitais locais. A tecnologia, antes coadjuvante, tornou-se protagonista na reta final da campanha, com ambos os lados utilizando ferramentas de geolocalização, disparo em massa e análise de dados para alcançar o eleitorado nordestino, que representa cerca de 27% do total de votos no país.
**Contexto**
Historicamente, o Nordeste é um reduto eleitoral de Lula, que venceu na região em todas as eleições desde 2006. Em 2022, o petista obteve mais de 67% dos votos válidos na região, contra 33% de Jair Bolsonaro. No entanto, a eleição de 2026 apresenta um cenário mais equilibrado. Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente, herdou a base bolsonarista e investiu pesado na região, especialmente em estados como Bahia, Pernambuco e Ceará, onde o PL cresceu nas últimas eleições municipais.
A campanha de Lula desenvolveu um aplicativo próprio, batizado de "Lula nas Ruas", que permite que apoiadores organizem carreatas, panfletagens e eventos de rua em tempo real. A ferramenta usa geolocalização para mapear áreas de maior concentração de eleitores indecisos e direciona voluntários para essas regiões. Dados do aplicativo, divulgados pela coordenação de campanha, indicam que mais de 50 mil pessoas se cadastraram na plataforma apenas no Nordeste nas últimas duas semanas. A tecnologia também é usada para combater desinformação: um sistema de verificação de fatos integrado ao app alerta os usuários sobre conteúdos falsos que circulam em grupos de WhatsApp.
Do lado de Flávio Bolsonaro, a estratégia tecnológica é igualmente agressiva. A campanha do PL contratou empresas especializadas em inteligência artificial para criar vídeos personalizados para diferentes perfis de eleitores. Em cidades do interior do Nordeste, eleitores recebem mensagens no WhatsApp com áudios gerados por IA que simulam a voz de Flávio, adaptando o discurso para temas locais, como a seca, o emprego rural e a segurança pública. A campanha também utiliza ferramentas de geolocalização para identificar áreas com alta concentração de evangélicos e enviar conteúdos específicos sobre pautas conservadoras.
**Análise**
A disputa pelo Nordeste na reta final revela uma transformação profunda na forma como as campanhas eleitorais são conduzidas no Brasil. A tecnologia deixou de ser apenas um canal de comunicação para se tornar um instrumento de mobilização física. O uso de aplicativos para organizar ações nas ruas mostra que o digital e o presencial não são excludentes, mas complementares. Lula, que sempre dependeu do contato corpo a corpo com o eleitor, agora soma a isso a capilaridade digital. Flávio, por sua vez, aposta na hiperpersonalização da mensagem, algo que só a inteligência artificial pode proporcionar em larga escala.
No entanto, essa corrida tecnológica levanta questões sobre privacidade e regulação. O uso de dados pessoais para segmentação política, especialmente em regiões com menor acesso à informação, pode ampliar a vulnerabilidade do eleitorado. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já emitiu resoluções que proíbem o disparo em massa não autorizado e o uso de deepfakes, mas a fiscalização ainda é limitada. Especialistas em direito digital alertam que a ausência de uma regulação mais robusta pode transformar o Nordeste em um laboratório de experimentos políticos com alto potencial de manipulação.
**Fontes**
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – Resoluções sobre propaganda eleitoral e uso de inteligência artificial. - Dados históricos de votação no Nordeste – Tribunal Superior Eleitoral (TSE), eleições 2022. - Coordenação de campanha do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – informações sobre o aplicativo "Lula nas Ruas". - Coordenação de campanha do candidato Flávio Bolsonaro (PL) – informações sobre uso de inteligência artificial e segmentação. - Entrevistas com especialistas em direito digital e campanhas eleitorais (nomes preservados a pedido das fontes).
Por Renan Filho · 2026-10-21