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O sociólogo e historiador Paul Freston, referência internacional no estudo da relação entre religião e política, afirmou que a recente onda de fake news envolvendo supostas aparições de Nossa Senhora no Brasil representa um caso emblemático do que chamou de “a direita prova do próprio veneno”. Para Freston, grupos conservadores que durante anos utilizaram a desinformação religiosa como ferramenta de mobilização eleitoral agora se veem vítimas do mesmo mecanismo, com narrativas falsas que fragmentam seu próprio eleitorado.
**Contexto**
Nos últimos meses, circularam nas redes sociais brasileiras vídeos e textos atribuindo a uma imagem de Nossa Senhora Aparecida mensagens políticas de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e críticas ao governo Lula. As supostas “aparições” foram amplamente compartilhadas por perfis bolsonaristas, mas logo vieram à tona evidências de montagem: as imagens eram de um santuário em Minas Gerais, e as frases atribuídas à santa nunca foram registradas por autoridades eclesiásticas. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu nota desmentindo qualquer fenômeno sobrenatural e classificou o conteúdo como “manipulação da fé”.
Paul Freston, que leciona na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e é autor de livros como “Evangélicos e Política no Brasil”, analisou o episódio em artigo publicado recentemente. Ele destaca que a estratégia de usar símbolos religiosos para validar agendas políticas não é nova, mas ganhou contornos perigosos com a digitalização da militância. “O que vemos agora é a direita sendo atingida por aquilo que ela mesma ajudou a normalizar: a ideia de que qualquer narrativa, desde que favoreça seu campo, pode ser verdadeira”, escreveu Freston.
O fenômeno não se restringe ao Brasil. Nos Estados Unidos, fake news sobre aparições marianas foram usadas por grupos pró-Trump em 2020. No entanto, o caso brasileiro chama a atenção pela rapidez com que a desinformação se espalhou e pela reação de setores conservadores que, antes, toleravam ou incentivavam boatos semelhantes contra adversários. “A direita brasileira construiu um ecossistema de desinformação que agora a devora”, complementa o sociólogo.
**Análise**
A declaração de Freston toca em um ponto central da crise de credibilidade das instituições democráticas: a erosão dos critérios de verdade. Quando grupos políticos passam a tratar a fé como instrumento de guerra eleitoral, o próprio tecido social se fragiliza. No caso específico das fake news de Nossa Senhora, a consequência imediata foi a divisão entre os próprios conservadores. Enquanto líderes evangélicos e católicos tradicionais repudiaram as montagens, milícias digitais continuaram a compartilhá-las, gerando conflitos internos.
Além disso, o episódio expõe a dificuldade das instituições religiosas em lidar com a velocidade da desinformação. A CNBB, embora tenha se manifestado, não possui capilaridade digital para contrapor cada boato. “A igreja perdeu o monopólio da interpretação dos sinais divinos. Hoje qualquer youtuber pode criar uma ‘aparição’ e viralizá-la antes que o bispo local termine de ler o comunicado oficial”, observa Freston.
O impacto político também é relevante. A polarização brasileira, já alimentada por narrativas de perseguição religiosa, ganha novo combustível. Grupos de extrema-direita podem usar a suposta “censura” da CNBB para reforçar a tese de que há uma conspiração contra a fé cristã. Por outro lado, setores moderados da direita veem na desinformação um risco à própria credibilidade do campo conservador. “A direita prova do próprio veneno: quem semeia ventos, colhe tempestades”, conclui Freston.
**Fontes**
- Paul Freston, sociólogo e historiador, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – nota oficial sobre as fake news de Nossa Senhora. - Artigos acadêmicos de Paul Freston sobre religião e política no Brasil. - Reportagens veiculadas por veículos como Folha de S.Paulo e O Globo sobre o episódio das supostas aparições.
Por Renan Filho · 2026-10-03