**Lead**
No Dia Mundial do Jornalismo, celebrado em 28 de setembro por dezenas de associações de imprensa ao redor do mundo, o Brasil reacende o debate sobre o papel da informação confiável na sustentação do regime democrático. Em meio a um cenário de polarização política, proliferação de notícias falsas e ataques sistemáticos à credibilidade da mídia, jornalistas, acadêmicos e representantes de entidades do setor alertam que a qualidade da informação não é apenas uma questão técnica, mas um pilar essencial para a tomada de decisões conscientes por parte dos cidadãos. A data, instituída informalmente por organizações como a Federação Internacional de Jornalistas e a Sociedade Interamericana de Imprensa, ganhou contornos de urgência no Brasil, onde a confiança na imprensa tradicional oscila em patamares críticos, segundo tendências observadas em estudos de opinião pública.
**Contexto**
O jornalismo brasileiro enfrenta desafios estruturais que remontam à redemocratização dos anos 1980, mas que se intensificaram com a revolução digital e a ascensão das redes sociais como fontes primárias de informação para grande parte da população. Levantamentos recentes de institutos de pesquisa, como o Reuters Institute Digital News Report, indicam que a confiança nos meios de comunicação no Brasil tem apresentado queda consistente ao longo da última década, embora os números exatos variem conforme a metodologia. Esse fenômeno não é exclusivo do país: em escala global, a erosão da credibilidade jornalística alimenta um ciclo vicioso de desinformação, no qual conteúdos falsos ou enganosos competem em igualdade de condições com reportagens verificadas.
No Brasil, a situação é agravada por fatores como a concentração da propriedade dos veículos de comunicação, a precarização do trabalho jornalístico e a ausência de marcos regulatórios robustos para plataformas digitais. A pandemia de covid-19 expôs de forma dramática as consequências da desinformação: boatos sobre tratamentos ineficazes, teorias da conspiração sobre vacinas e ataques a cientistas e jornalistas que buscavam esclarecer os fatos. Organizações como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência têm promovido iniciativas de checagem de fatos e educação midiática, mas os recursos são limitados diante da escala do problema.
A data de 28 de setembro foi escolhida por remeter à fundação da primeira agência de notícias do mundo, a Havas, em 1835, e é adotada por diversas entidades como um momento de reflexão sobre os rumos da profissão. No Brasil, sindicatos e federações de jornalistas realizam seminários e debates ao longo da semana, abordando temas como a segurança dos profissionais, a diversidade nas redações e a sustentabilidade econômica do jornalismo independente. A ausência de uma data oficial reconhecida pelo poder público não diminui a relevância simbólica da celebração, que ganhou força especialmente após os ataques de 8 de janeiro de 2023, quando a destruição de sedes dos Três Poderes em Brasília evidenciou o risco que a desinformação representa para as instituições democráticas.
**Análise**
A relação entre jornalismo confiável e democracia no Brasil pode ser compreendida a partir de três dimensões interligadas. A primeira é a função de vigilância: a imprensa atua como um contrapoder, fiscalizando governos, empresas e agentes públicos. Sem informação verificada, a sociedade perde a capacidade de responsabilizar seus representantes, abrindo espaço para a corrupção e o abuso de autoridade. A segunda dimensão é a da deliberação pública: decisões coletivas sobre temas complexos — como políticas ambientais, reformas tributárias ou investimentos em saúde — dependem de um debate informado. Quando a população é exposta a narrativas falsas ou distorcidas, o processo democrático se degenera em manipulação e polarização estéril.
A terceira dimensão, menos discutida, é a da coesão social. O jornalismo de qualidade, ao buscar a precisão dos fatos e a pluralidade de vozes, contribui para a construção de uma esfera pública onde diferentes grupos podem dialogar com base em referências comuns. A desinformação, ao contrário, fragmenta a sociedade em bolhas incomunicáveis, cada uma com seus próprios “fatos” e verdades alternativas. Esse fenômeno tem sido estudado por cientistas da comunicação e da ciência política, que apontam a correlação entre o declínio da confiança na mídia e o aumento do extremismo político.
No campo da ciência, o jornalismo especializado desempenha um papel crucial na tradução de descobertas acadêmicas para o público leigo. A cobertura de temas como mudanças climáticas, vacinação e inteligência artificial exige não apenas rigor factual, mas também capacidade de contextualização e comunicação clara. Quando esse elo se rompe, a sociedade fica vulnerável a charlatães e negacionistas. Por isso, entidades científicas como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência têm defendido a formação de jornalistas com sólida base em metodologia científica e a criação de canais permanentes de colaboração entre redações e universidades.
**Fontes**
As informações deste artigo foram baseadas em relatórios públicos do Reuters Institute for the Study of Journalism (Digital News Report), em comunicados da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), além de artigos acadêmicos sobre desinformação e democracia publicados em periódicos revisados por pares. Dados específicos sobre índices de confiança foram omitidos por não haver consenso metodológico entre as fontes consultadas, mas as tendências descritas são corroboradas por múltiplos estudos independentes.
Por Renan Filho · 2026-09-28