**Lead**
Um levantamento inédito baseado em declarações oficiais de Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) revelou que os dez brasileiros com maior patrimônio declarado ao Fisco informaram valores que variam de R$ 79 milhões a R$ 678 milhões. Os dados, compilados por pesquisadores do Centro de Estudos em Ciência de Dados e Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), foram obtidos por meio de pedidos de acesso à informação e cruzamento de bases anonimizadas da Receita Federal. O estudo, ainda em fase de revisão por pares, levanta questões sobre a precisão das declarações patrimoniais e a eficácia dos mecanismos de fiscalização.
**Contexto**
A pesquisa, coordenada pelo professor de economia e métodos quantitativos da USP, Dr. Carlos Alberto de Oliveira, analisou as declarações de IRPF dos anos-calendário de 2020 a 2024. Os pesquisadores utilizaram técnicas de anonimização estatística para preservar a identidade dos contribuintes, mas puderam identificar os estratos superiores de renda e patrimônio. O estudo mostra que, entre os 0,01% mais ricos do país, o patrimônio médio declarado é de aproximadamente R$ 45 milhões, enquanto o 1% mais rico declara, em média, R$ 1,2 milhão.
A disparidade entre os valores declarados e as estimativas de fortuna de bilionários brasileiros feitas por veículos internacionais, como a Forbes e a Bloomberg, é um dos pontos centrais do trabalho. Enquanto a Forbes estima que o homem mais rico do Brasil tenha patrimônio superior a R$ 100 bilhões, a declaração oficial do mesmo indivíduo à Receita Federal, segundo os dados anonimizados do estudo, situa-se na faixa dos R$ 600 milhões. A diferença de mais de 160 vezes acendeu o alerta entre os cientistas de dados.
“O que observamos é um padrão consistente de subdeclaração nos estratos superiores. Não estamos falando de erros de digitação, mas de uma diferença sistemática que sugere a utilização de estruturas societárias, trusts no exterior e outros instrumentos de planejamento patrimonial que, embora legais em muitos casos, dificultam a mensuração real da riqueza”, afirmou o professor Oliveira em entrevista ao FORTIS NEWS.
**Análise**
Para a ciência econômica e a ciência de dados, esse fenômeno tem implicações profundas. Modelos de distribuição de renda e riqueza, utilizados para planejar políticas públicas e entender a desigualdade, dependem de dados precisos. Se os dados de topo da pirâmide são sistematicamente subnotificados, as estimativas de concentração de renda — como o coeficiente de Gini — podem estar subestimando a real desigualdade brasileira.
“A ciência de dados aplicada às finanças públicas tem mostrado que, sem acesso a dados desagregados e sem cruzamento com informações de registros de propriedade de empresas, imóveis e ativos financeiros no exterior, qualquer análise sobre a riqueza dos super-ricos é incompleta”, explica a Dra. Marina Silva Santos, pesquisadora do Instituto de Matemática e Estatística da USP e coautora do estudo. “Nosso trabalho é um passo para entender o tamanho do problema, mas ainda estamos longe de uma fotografia fiel.”
A pesquisa também aponta que a Receita Federal, embora possua ferramentas de fiscalização, enfrenta limitações legais e operacionais para auditar as declarações de altíssimo patrimônio. A complexidade das holdings familiares, a utilização de paraísos fiscais e a falta de compartilhamento automático de informações com outros países são obstáculos reconhecidos até mesmo por autoridades fiscais.
**Fontes**
As informações contidas nesta reportagem foram obtidas a partir do estudo “Desigualdade no Topo: Uma Análise de Dados Anonimizados da Receita Federal (2020-2024)”, conduzido pelo Centro de Estudos em Ciência de Dados e Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), sob coordenação do professor Dr. Carlos Alberto de Oliveira. Os dados foram cedidos à reportagem mediante autorização dos pesquisadores, respeitando os termos de anonimização. Não foram consultadas fontes individuais identificadas, em respeito às regras de sigilo fiscal. A reportagem também se baseou em metodologias de estimativa de riqueza publicadas por veículos como Forbes Brasil e Bloomberg, citadas apenas como referência de contraste, sem que seus dados específicos tenham sido reproduzidos.
Por Renan Filho · 2026-10-09