**Lead**
Uma combinação de fatores culturais, educacionais e estruturais tem gerado o que especialistas chamam de “desvontade tecnológica” no Brasil – um fenômeno marcado pela baixa adesão da população e das empresas a inovações digitais. Enquanto países como Coreia do Sul e Estônia avançam em governo digital, automação e inteligência artificial, o Brasil enfrenta uma resistência difusa que vai desde a desconfiança em relação a plataformas online até a falta de habilidades básicas para o uso de ferramentas modernas. Dados de instituições como o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e o IBGE apontam que, apesar do aumento no acesso à internet, milhões de brasileiros ainda não utilizam serviços digitais por receio ou desconhecimento.
**Contexto**
A “desvontade” não é um termo técnico, mas reflete uma realidade observada em pesquisas recentes. Levantamentos do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) indicam que uma parcela significativa da população brasileira navega apenas em redes sociais e aplicativos de mensagens, evitando transações bancárias online, compras em e-commerce ou serviços públicos digitais. A falta de letramento digital é um dos principais entraves: muitos usuários não confiam em senhas, têm medo de golpes ou simplesmente não veem utilidade em ferramentas mais sofisticadas.
No setor empresarial, a situação se repete. Pequenas e médias empresas (PMEs) – que representam a maioria dos negócios no país – ainda operam com processos manuais, resistindo à digitalização. Estudos do Sebrae mostram que a falta de capacitação dos funcionários e o custo percebido das soluções tecnológicas são barreiras recorrentes. Ao mesmo tempo, a infraestrutura de conectividade em regiões rurais e periferias urbanas permanece precária, com velocidades baixas e quedas frequentes, o que desestimula a adoção de tecnologias mais avançadas, como videoconferências e sistemas de nuvem.
A herança histórica também pesa. Décadas de instabilidade econômica e uma carga tributária complexa fizeram com que muitas empresas priorizassem o curto prazo. A cultura do “jeitinho” – resolver problemas de forma improvisada – muitas vezes substitui a busca por soluções tecnológicas estruturadas. No serviço público, a desvontade aparece na lentidão para implementar sistemas integrados e na resistência de servidores a mudanças de rotina. O governo federal já lançou iniciativas como o programa Brasil Digital e a Estratégia de Governança Digital, mas a execução esbarra em entraves burocráticos e na falta de continuidade administrativa.
**Análise**
O impacto da desvontade tecnológica vai além do atraso individual. Em uma economia cada vez mais baseada em dados, a baixa adoção de tecnologia reduz a produtividade do trabalho e a competitividade das empresas brasileiras no mercado global. Setores como agropecuária, que poderiam se beneficiar de sensores IoT e drones para agricultura de precisão, ainda operam com baixa automação em muitas propriedades. Na área da saúde, a telemedicina – que mostrou potencial durante a pandemia – é subutilizada por desconfiança de pacientes e profissionais. A educação a distância enfrenta evasão elevada em parte porque alunos e professores não estão familiarizados com plataformas interativas.
Por outro lado, a desvontade também gera oportunidades para políticas públicas focadas. O fortalecimento da educação digital nas escolas – com currículos que ensinem não apenas o uso, mas a lógica por trás das tecnologias – pode mudar o cenário em uma geração. Incentivos fiscais para digitalização de PMEs, como os previstos na Lei do Bem, precisam ser mais divulgados e simplificados. Além disso, a expansão da banda larga via fundos setoriais (Fust) e parcerias privadas é urgente para reduzir a desigualdade de acesso. Sem ações coordenadas, o Brasil corre o risco de aprofundar o fosso digital interno e perder o bonde da Quarta Revolução Industrial.
**Fontes**
- Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) – Pesquisa TIC Domicílios - Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) – Estudos de digitalização de PMEs - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) sobre acesso à internet - Ministério das Comunicações – Programa Brasil Digital e Estratégia de Governança Digital
Por Renan Filho · 2026-10-25