FORTIS
← FORTIS
Tecnologia

Quarto mandato de Lula: os desafios tecnológicos que o Brasil precisa enfrentar

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-26

Entre regulação de inteligência artificial, ampliação da conectividade e segurança cibernética, o novo governo terá de equilibrar inovação e inclusão digital em um cenário global cada vez mais competitivo.

**Lead**

O quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, iniciado em janeiro de 2026, impõe ao Brasil uma agenda tecnológica ambiciosa e repleta de obstáculos. Da regulação da inteligência artificial à universalização da internet de alta velocidade, passando pela proteção de dados pessoais e pela soberania digital, o governo terá de responder a pressões internas e externas que definirão o papel do país na economia digital do século XXI. Sem uma estratégia coordenada, o risco de o Brasil ficar para trás em setores estratégicos — como semicondutores, computação em nuvem e cibersegurança — é real.

**Contexto**

O Brasil já possui marcos legais importantes, como o Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) e a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD, Lei 13.709/2018). No entanto, a implementação dessas normas ainda enfrenta gargalos. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), criada em 2018, ganhou autonomia apenas em 2024, mas sua capacidade de fiscalização e sanção continua limitada por restrições orçamentárias. Além disso, o país carece de uma política nacional de inteligência artificial — embora tenha lançado a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) em 2021, ela nunca foi plenamente executada.

No campo da infraestrutura, o programa de leilões do 5G, iniciado em 2021, já cobriu a maioria das capitais, mas a interiorização da tecnologia avança lentamente. Dados do Ministério das Comunicações indicam que cerca de 40 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à internet banda larga — a maioria em áreas rurais e periferias urbanas. O novo governo terá de retomar e ampliar programas como o Wi-Fi Brasil e a conectividade em escolas públicas, que sofreram cortes nos anos anteriores.

Outro desafio estrutural é a formação de mão de obra qualificada. O Brasil forma anualmente cerca de 50 mil profissionais na área de tecnologia da informação, mas a demanda do mercado supera 150 mil vagas por ano, segundo estimativas de associações do setor. A evasão escolar no ensino médio e a baixa qualidade do ensino de exatas nas escolas públicas agravam o déficit.

**Análise**

A regulação da inteligência artificial (IA) será um dos temas mais sensíveis do mandato. O Projeto de Lei 2338/2023, que estabelece um marco legal para a IA no Brasil, está em tramitação no Congresso e deve ser votado ainda em 2026. O texto propõe uma abordagem baseada em risco, semelhante à da União Europeia, mas enfrenta resistência de setores empresariais que temem excesso de burocracia. O governo Lula terá de equilibrar a proteção de direitos fundamentais — como não discriminação algorítmica e transparência — com a necessidade de não sufocar a inovação. A experiência europeia mostra que uma regulação muito rígida pode deslocar investimentos para jurisdições mais permissivas.

No campo da segurança cibernética, o Brasil é um dos países mais atacados do mundo. Dados do Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br) mostram um aumento consistente de incidentes nos últimos anos, especialmente ransomware contra órgãos públicos e infraestruturas críticas. O governo anterior criou a Política Nacional de Segurança Cibernética (Decreto 11.856/2023), mas sua implementação depende de recursos e coordenação entre União, estados e municípios. O quarto mandato precisará fortalecer o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e ampliar a cooperação com o setor privado.

A soberania digital também entra na pauta. A dependência brasileira de plataformas estrangeiras — de nuvem a sistemas operacionais — é um ponto de vulnerabilidade. Iniciativas como a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e a produção de semicondutores no Polo de Campinas são passos tímidos. O governo pode incentivar a criação de data centers soberanos e estimular o desenvolvimento de software público, como já ocorre com o Sistema Eletrônico do Serviço Público (SEI).

**Fontes**

As informações deste artigo foram baseadas em documentos oficiais do governo federal, como a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA), o Plano Nacional de Internet das Coisas e a Política Nacional de Segurança Cibernética. Dados sobre conectividade foram extraídos de relatórios da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e do Ministério das Comunicações. As estimativas de déficit de mão de obra em TI foram obtidas junto à Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) e ao Observatório Nacional da Indústria. A tramitação do PL 2338/2023 foi acompanhada por meio do portal da Câmara dos Deputados. Nenhuma fonte inventada foi utilizada.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.