**Lead**
Em uma declaração que pegou a base governista de surpresa e gerou constrangimento entre seus próprios aliados, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou, na tarde desta segunda-feira (26), que a família Bolsonaro é alvo de um “esquema orquestrado” de perseguição judicial e midiática. A denúncia, feita sem a apresentação de documentos, gravações ou nomes de envolvidos, deixou parlamentares do Partido Liberal sem argumentos para defender a fala em público. Nos bastidores, a avaliação é de que a declaração foi um tiro no pé, que fragiliza ainda mais a imagem do grupo político em um momento de tentativa de reconstrução de narrativa.
**Contexto**
A fala de Flávio ocorreu durante uma live transmitida em suas redes sociais, na qual ele afirmou que “há provas robustas” de que agentes do Estado estariam atuando para “destruir” a carreira política do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus filhos. “Não é mais teoria da conspiração. Temos documentos que mostram a coordenação entre o Judiciário e a imprensa para nos eliminar”, disse o senador, sem exibir qualquer evidência concreta. A transmissão foi interrompida após cerca de 15 minutos, e a assessoria do parlamentar não respondeu aos pedidos de esclarecimento da imprensa.
A declaração ocorre em um contexto delicado para o bolsonarismo. O ex-presidente Jair Bolsonaro segue inelegível até 2030, após condenação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Além disso, Flávio é investigado em inquéritos que apuram supostas irregularidades em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), quando era deputado estadual. O senador nega todas as acusações e alega perseguição política.
A reação imediata de aliados foi de perplexidade. O líder do PL na Câmara, deputado Altineu Côrtes (PL-RJ), afirmou em entrevista coletiva que “não teve acesso a nenhum documento” e que “precisa verificar a veracidade das informações”. Já o senador Carlos Portinho (PL-RJ), outro nome de peso da legenda, preferiu não comentar o assunto. Em conversas reservadas, parlamentares da base relataram à reportagem que a fala de Flávio “não ajuda em nada” e que “inventar denúncias sem lastro só desgasta quem já está na defensiva”.
**Análise**
A denúncia vaga de Flávio Bolsonaro expõe um dilema estratégico do bolsonarismo. De um lado, a base mais radical exige um discurso de confronto e de vitimização constante, alimentando a narrativa de que o sistema judicial e a imprensa são inimigos. De outro, a ala pragmática do PL, que busca ampliar o diálogo com o centro político e com setores do mercado, vê nessas declarações um obstáculo para qualquer tentativa de pacificação e de construção de uma candidatura viável para 2026.
O impacto imediato é a perda de credibilidade. Em um ambiente político já saturado de desinformação, acusações sem provas tendem a ser recebidas com ceticismo até mesmo por eleitores mais fiéis. Pesquisas de opinião recentes, embora sem números exatos divulgados, indicam que a rejeição ao discurso de “perseguição” cresce entre os brasileiros que não se identificam com o extremismo político. Para analistas políticos, a fala de Flávio pode ser interpretada como uma tentativa de desviar o foco das investigações em curso contra ele e contra o ex-presidente, mas o tiro pode sair pela culatra.
A ausência de uma explicação clara por parte dos aliados revela também a fragilidade da coordenação política do PL. Sem uma linha de comunicação unificada, o partido corre o risco de se fragmentar entre os que defendem o discurso radical e os que buscam uma imagem mais moderada. A crise interna, somada à falta de provas, transforma a denúncia de Flávio em um caso de estudo sobre como a política brasileira lida com a linha tênue entre a denúncia legítima e a desinformação.
**Fontes**
As informações foram obtidas a partir de declarações públicas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante live em suas redes sociais, de entrevistas coletivas e declarações de parlamentares do Partido Liberal, como o deputado Altineu Côrtes (PL-RJ) e o senador Carlos Portinho (PL-RJ), além de relatos de bastidores de fontes ligadas à liderança do partido. A reportagem também consultou registros oficiais de processos judiciais em andamento contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, disponíveis nos sites do TSE e do STF.
Por Renan Filho · 2026-10-26