**Lead**
O déficit das contas externas brasileiras registrou uma forte contração em setembro de 2026, caindo 42% em comparação com o mesmo mês do ano anterior, para US$ 5,1 bilhões. O dado, divulgado nesta segunda-feira pelo Banco Central, representa o menor rombo para meses de setembro desde 2022 e sinaliza uma melhora significativa no fluxo de divisas do país, sustentada por um desempenho excepcional da balança comercial e pela redução das saídas de capital na forma de remessas de lucros e dividendos.
**Contexto**
As contas externas, também conhecidas como transações correntes, englobam a balança comercial (exportações menos importações), a balança de serviços (viagens, transportes, aluguel de equipamentos), as rendas (lucros, juros, dividendos enviados ao exterior) e as transferências unilaterais (doações, remessas de imigrantes). O resultado de setembro, de US$ 5,1 bilhões negativos, veio bem abaixo da mediana das expectativas do mercado, que projetava um déficit em torno de US$ 7 bilhões.
O principal motor da melhora foi o superávit comercial de setembro, que atingiu US$ 8,2 bilhões, o maior da história para o mês. As exportações somaram US$ 30,5 bilhões, impulsionadas pelo embarque recorde de petróleo bruto, minério de ferro e soja, enquanto as importações totalizaram US$ 22,3 bilhões, pressionadas pela queda nos preços internacionais de fertilizantes e componentes eletrônicos. A conta de serviços, tradicionalmente deficitária, registrou saldo negativo de US$ 3,1 bilhões, influenciado pelo aumento de gastos de brasileiros no exterior durante o período de férias escolares.
No acumulado dos primeiros nove meses de 2026, o déficit em transações correntes soma US$ 42,8 bilhões, valor 18% inferior ao registrado no mesmo período de 2025. O Banco Central projeta que o déficit total do ano feche em torno de US$ 55 bilhões, o equivalente a 2,1% do Produto Interno Bruto (PIB), abaixo dos 2,5% registrados em 2025.
**Análise**
A queda expressiva do déficit externo em setembro reflete uma combinação de fatores conjunturais e estruturais. Do lado conjuntural, o ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos e na Europa reduziu a atratividade de investimentos brasileiros de curto prazo, mas, paradoxalmente, também diminuiu a pressão sobre as remessas de lucros, já que as empresas multinacionais postergaram a distribuição de dividendos diante da incerteza global. Além disso, a desvalorização cambial do real ao longo de 2026 — que acumula queda de 8% frente ao dólar — tornou as exportações brasileiras mais competitivas, estimulando o volume embarcado.
Do ponto de vista estrutural, o Brasil vem colhendo os frutos de investimentos realizados nos últimos anos no setor de óleo e gás. A entrada em operação de novas plataformas do pré-sal elevou a produção nacional de petróleo para 3,8 milhões de barris por dia, permitindo que o país se tornasse exportador líquido de derivados. Esse movimento reduziu a dependência de importação de combustíveis, que historicamente pressionava as contas externas. A safra recorde de grãos, estimada em 330 milhões de toneladas para a temporada 2025/2026, também contribuiu para o superávit comercial robusto.
Especialistas apontam, no entanto, que a melhora das contas externas não elimina vulnerabilidades. O déficit de serviços, especialmente nas rubricas de viagens e aluguel de equipamentos, continua elevado. Em setembro, os gastos de brasileiros com viagens ao exterior somaram US$ 1,9 bilhão, enquanto os estrangeiros gastaram apenas US$ 500 milhões no Brasil, gerando um saldo negativo de US$ 1,4 bilhão apenas nesse item. A conta de transportes, que inclui fretes marítimos e aluguel de navios, também contribuiu com um déficit de US$ 800 milhões.
**Fontes**
Os dados foram extraídos do relatório de Setor Externo do Banco Central do Brasil, divulgado em 26 de outubro de 2026. As projeções de mercado mencionadas são baseadas no Boletim Focus do Banco Central, edição de 23 de outubro de 2026. Informações complementares sobre produção de petróleo e safra agrícola foram obtidas nos relatórios mensais da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), respectivamente.
Por Renan Filho · 2026-10-26