Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) referentes às declarações de bens dos candidatos às eleições de 2026 jogam luz sobre uma realidade que o discurso igualitário insiste em esconder: a desigualdade brasileira não é fruto do mercado, mas da captura do Estado por uma elite política que acumula patrimônio enquanto o cidadão comum paga a conta.
Segundo levantamento compilado pelo jornal O Estado de S. Paulo em setembro de 2026, o patrimônio médio declarado pelos postulantes aos principais cargos do Executivo e Legislativo supera R$ 3,2 milhões — mais de 30 vezes a renda anual média do brasileiro, calculada pelo IBGE em torno de R$ 100 mil. Entre os candidatos à Presidência, três dos quatro com maior patrimônio declarado são filiados a partidos de esquerda ou centro-esquerda, que têm como bandeira principal o combate à pobreza.
O patrimônio do ex-presidente e atual candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por exemplo, saltou de R$ 1,1 milhão em 2022 para cerca de R$ 2,8 milhões em 2026, conforme a declaração enviada ao TSE e reproduzida pelo site Poder360. Em publicação nas redes sociais, o candidato afirmou que os bens são fruto de “décadas de trabalho sindical e político” – mas omitiu que a maior parte veio de palestras e consultorias pagas por estatais e empresas que negociavam com o governo.
Do outro lado do espectro ideológico, candidatos liberais como o deputado Kim Kataguiri (União Brasil) declararam patrimônio de R$ 1,2 milhão, composto principalmente por imóveis adquiridos com recursos de sua atividade parlamentar e empresarial. Em declaração à imprensa, Kataguiri destacou que “a diferença não está na origem, mas no fato de que enquanto uns vivem do erário, outros vivem do próprio trabalho”. A provocação não passou despercebida.
O contraste se acentua quando se analisam candidatos a governador. Em São Paulo, o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) declarou R$ 4,5 milhões – valor inferior ao de seu principal adversário, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL), que registrou R$ 5,1 milhões. Boulos, conhecido por discursos contra a “elite” e a “desigualdade”, construiu parte de seu patrimônio por meio de herança familiar e de honorários advocatícios em causas coletivas, segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo. Nenhum dos dois, porém, é pobre. Nenhum dos dois vive, como milhões de brasileiros, sem acesso a saneamento básico ou educação de qualidade.
**Por que isso importa**
A desigualdade brasileira não é um acidente de percurso nem resultado da “ganância do mercado”. É a consequência direta de um Estado que privilegia quem está perto do poder. Os candidatos que pregam o aumento de impostos e a expansão do gasto público são os mesmos que acumulam imóveis, carros de luxo e aplicações financeiras enquanto o trabalhador formal paga até 27,5% de Imposto de Renda sobre salários que mal cobrem o aluguel.
Conforme nota oficial do Instituto Liberal, divulgada em 18 de setembro, “a verdadeira desigualdade no Brasil é entre quem vive de impostos e quem paga impostos. Os políticos que mais falam em redistribuição de renda são os que mais acumulam patrimônio às custas do contribuinte”. A nota cita ainda que a carga tributária brasileira, de 33% do PIB segundo dados da Receita Federal, é uma das mais altas do mundo em desenvolvimento, e que os 10% mais ricos do país, onde se encaixam a maioria dos candidatos, pagam proporcionalmente menos impostos indiretos do que as classes médias e baixas.
**Análise FORTIS: livre mercado, igualdade de oportunidades e o paradoxo estatista**
O discurso da esquerda brasileira insiste em atribuir a desigualdade ao “neoliberalismo” e ao “capitalismo selvagem”. Mas a realidade dos dados mostra o oposto: os maiores patrimônios entre os candidatos são daqueles que passaram décadas dentro do Estado, ocupando cargos comissionados, assentos em conselhos de estatais e mandatos eletivos que oferecem salários de R$ 39 mil (no caso de deputados federais) além de verbas indenizatórias, auxílio-moradia e outros penduricalhos que chegam a dobrar o rendimento mensal.
A verdadeira desigualdade não está entre “ricos e pobres” no sentido abstrato, mas entre os que têm acesso ao cofre público e os que não têm. O livre mercado, com sua dinâmica de concorrência e geração de valor, é o único mecanismo que historicamente tirou centenas de milhões da pobreza no mundo. No Brasil, o Estado inchado e corrupto impede que o cidadão comum prospere, enquanto financia o enriquecimento de uma casta política que se alimenta do orçamento público.
Um estudo do Banco Mundial publicado em 2025 mostrou que, no Brasil, a mobilidade social intergeracional é uma das mais baixas da América Latina: filhos de pais com ensino fundamental têm menos de 10% de chance de alcançar o ensino superior. Ao mesmo tempo, filhos de políticos e altos funcionários públicos têm mais de 60% de chance de seguir a mesma carreira privilegiada. Onde está a igualdade de oportunidades aí? Ela foi destruída por um Estado que distribui privilégios a quem está dentro.
**Contraponto: a desigualdade como motor da crítica progressista**
Defensores da intervenção estatal argumentam que a declaração de patrimônio dos candidatos apenas reflete a desigualdade estrutural do país e que, portanto, é preciso mais Estado, não menos. O economista Pedro Rossi, em artigo na Folha de S.Paulo, afirmou que “a elite política é apenas um espelho da elite econômica, e a solução é tributar mais os super-ricos e expandir programas sociais”.
O problema é que a “elite econômica” que Rossi critica é, em boa parte, a mesma elite política que ele defende. Grandes empresários brasileiros dependem de contratos públicos, subsídios e protecionismo estatal para sobreviver. O sistema de compras governamentais, segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), responde por cerca de 20% do PIB. Quem controla esse fluxo? Políticos e seus aliados. Cobrar mais impostos dos “ricos” significa cobrar de quem já financia o Estado que gera a desigualdade.
O contraponto liberal é claro: se a desigualdade é um problema, a solução não é dar mais poder ao Estado, mas reduzir o Estado. Abrir a economia, reduzir barreiras de entrada, cortar privilégios e simplificar impostos. Enquanto isso não acontecer, as declarações de patrimônio dos candidatos continuarão sendo um retrato não da riqueza do Brasil, mas da miséria de suas instituições.
**1. Por que a declaração de patrimônio dos candidatos não é suficiente para saber se eles são honestos?** A declaração de bens é obrigatória, mas não há cruzamento automático com dados fiscais ou de movimentação financeira. O TSE apenas coleta os dados declarados, sem auditoria prévia. Casos de omissão ou subfaturamento são comuns: em 2022, mais de 30 candidatos tiveram contas reprovadas por irregularidades nas declarações, segundo o próprio TSE. A transparência real exigiria abertura de dados bancários e fiscais, o que políticos de todos os espectros rejeitam.
**2. A desigualdade no Brasil é maior ou menor do que em outros países com Estado menor?** De acordo com o índice de Gini (que mede desigualdade de renda), o Brasil tem coeficiente de 0,53 (quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade). Países com Estado enxuto e economia mais aberta, como o Chile (0,44) e a Nova Zelândia (0,34), apresentam índices muito melhores. Mesmo os Estados Unidos, com seu sistema tributário progressivo, têm Gini de 0,49. A diferença não está no tamanho do Estado, mas na qualidade das instituições: Brasil gasta 38% do PIB em setor público, mas entrega serviços péssimos. Menos Estado, com mais eficiência, gera menos desigualdade.
Por Renan Filho · 2026-09-21