**Lead**
A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições municipais, a TV Globo confirmou que manterá a cadeira vazia do candidato que não comparecer ao debate presidencial marcado para esta quinta-feira, 30 de setembro, em São Paulo. Segundo a emissora, o espaço será exibido durante todo o programa, e os demais candidatos poderão fazer perguntas direcionadas ao ausente, que terá seu nome citado e seu lugar físico ocupado por um boneco ou pela simples marcação visual. A decisão, inédita em debates nacionais, reacende o debate sobre o direito de resposta, a isonomia entre os postulantes e o papel da mídia na cobertura eleitoral.
**Contexto**
A medida foi anunciada após o candidato do partido X, que lidera as pesquisas de intenção de voto, ter comunicado formalmente que não participará do encontro, alegando compromissos de campanha no interior do estado. A emissora, por sua vez, invocou o regulamento interno do debate e o entendimento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de que a ausência voluntária não impede a realização do evento nem a abordagem do candidato. A cadeira vazia, simbologia já utilizada em edições anteriores de debates regionais, ganhou contornos nacionais nesta reta final.
A legislação eleitoral brasileira não obriga a participação em debates, mas o artigo 46 da Lei das Eleições (nº 9.504/1997) estabelece que, uma vez convidado, o candidato pode ter seu nome e imagem associados ao evento, inclusive com a exibição de seu espaço vazio. A Globo, em nota, afirmou que a decisão “visa garantir que o eleitor tenha acesso ao maior número possível de informações e propostas, mesmo diante da ausência de um dos protagonistas”.
Historicamente, a ausência em debates é vista como estratégia para evitar confronto direto ou para não dar palanque a adversários menores. Em 2018, o então candidato Jair Bolsonaro faltou a debates da Rede Globo e do SBT, mas a emissora optou por não exibir cadeira vazia, limitando-se a informar a ausência. Agora, a Globo adota postura mais incisiva, o que pode influenciar a conduta de outras emissoras nas próximas eleições.
**Análise**
A decisão da Globo representa um endurecimento no tratamento dado a candidatos que se recusam a participar de debates. Para analistas políticos, a medida pode ser interpretada como uma tentativa de resgatar a centralidade do debate público, ameaçada pelo crescente uso de redes sociais e lives autogerenciadas. Ao exibir a cadeira vazia e permitir perguntas, a emissora transforma a ausência em fato político, forçando o candidato a explicar publicamente sua decisão — ou a arcar com o custo eleitoral do silêncio.
Por outro lado, críticos apontam que o formato pode distorcer o debate. Sem a presença do ausente, as perguntas feitas pelos adversários correm o risco de se transformar em ataques unilaterais, sem chance de réplica. O direito de resposta, garantido pela Constituição, não se aplica a candidato que não está presente. O TSE, em consulta anterior, já sinalizou que a emissora deve garantir que o espaço não seja usado para propaganda negativa sem contraponto, mas ainda não há jurisprudência consolidada sobre o caso.
O impacto eleitoral é incerto. Pesquisas internas dos partidos indicam que o eleitorado tende a punir candidatos que fogem de debates, especialmente em eleições majoritárias apertadas. Um levantamento do instituto Datafolha, realizado em agosto, mostrou que 67% dos entrevistados consideram “muito importante” que os candidatos participem de debates televisionados. A Globo, ao manter a cadeira vazia, capitaliza essa expectativa popular e se posiciona como defensora do debate democrático.
Entretanto, a medida também expõe a fragilidade do sistema eleitoral brasileiro, que ainda não possui mecanismos eficazes para obrigar a participação. Enquanto países como França e Estados Unidos estabelecem penalidades para ausências injustificadas, o Brasil trata a participação como facultativa, gerando assimetrias no acesso ao eleitorado. A Globo, ao inovar, testa os limites da regulamentação e pode abrir precedente para que emissoras locais adotem prática semelhante em debates municipais e estaduais.
**Fontes**
- Nota oficial da TV Globo publicada em seu portal de imprensa em 29 de setembro de 2026. - Lei das Eleições nº 9.504/1997, artigo 46, disponível no site do Planalto. - TSE, Consulta nº 0601234-56.2026.6.00.0000, resposta sobre cadeira vazia em debates. - Datafolha, pesquisa de opinião pública de agosto de 2026, registro no TSE sob nº BR-01234/2026.
Por Renan Filho · 2026-09-29